ESTREIA–Jafar Panahi resiste à proibição de filmar em “Cortinas Fechadas”

quarta-feira, 23 de julho de 2014 13:18 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - De várias maneiras, o docudrama "Cortinas Fechadas”, estreando em São Paulo, dá sequência a “Isto não é um filme” (2011), aquela que foi a primeira investida cinematográfica do cineasta iraniano Jafar Panahi depois de sua condenação a uma inimaginável proibição de filmar por 20 anos, além da prisão domiciliar por outros seis, imposta em 2010.

Ainda que reduzido, como ele mesmo disse, a um “mundo de melancolia” – numa desafiadora manifestação enviada via Skype ao Festival de Karlovy Vary, em julho de 2013 -, na prática Panahi, sempre em parceria com algum colega corajoso, tem dado um jeito de continuar ativo. Invariavelmente, seus parceiros são punidos.

O co-diretor de “Cortinas Fechadas”, Kamboziya Partovi e a atriz Maryam Moghadam, ambos intérpretes no filme, tiveram seus passaportes cassados pelo governo iraniano assim que voltaram do Festival de Berlim, em 2013, que acabara de conceder à obra um prêmio de melhor roteiro.

Autor de uma cinematografia de crítica e reflexão, em que se destaca “O Círculo”, Leão de Ouro em Veneza 2000, e agora também engajada numa desobediência civil, Panahi assina o roteiro de um relato centrado na falta de liberdade.

A história começa com a chegada de um roteirista (Kamboziya Partovi) a uma casa próxima de uma praia. Ao entrar, ele se apressa em fechar todas as cortinas e trancar as portas. De uma maleta, retira um cachorro, animal que é alvo de perseguições no Irã, por ser supostamente “imundo”.

Com a única companhia desse cão, que se preocupa em esconder, o escritor tenta concluir uma obra. Sons externos introduzem um clima de agitação e perseguição. E a casa é misteriosamente invadida por um casal jovem, que se diz perseguido político. O rapaz logo parte, mas a moça (Maryam Moghadam) fica, um tanto contra a vontade do escritor.

Entre os dois desenvolve-se uma relação tensa, conflituosa, que remete a um contexto mais abstrato. O próprio Panahi acaba aparecendo em cena e a narrativa assume um aspecto cada vez mais metafórico. 

“Cortinas Fechadas” é um filme sobre fazer um filme, sobre artifício e aparência, sobre uma representação que se arma e desarma. Em última análise, sobre pessoas que se valem de todas as armas para continuarem se expressando.

É visível, até pelo semblante de Panahi, que ele está mais triste, mais tenso. Mas é uma amargura que se debate, mesmo diante das câmeras, como afirmando: “Vocês me proíbem, mas eu falo, de algum modo eu falo. Alguma coisa eu consigo falar”.   Continuação...

 
Integrante do júri do Festival de Berlim ao lado de foto do diretor iraniano Jafar Panahi. 16/02/2013. REUTERS/Fabrizio Bensch