ESTREIA–Atom Egoyan revive controversa condenação de adolescentes em “Sem Evidências”

quarta-feira, 23 de julho de 2014 14:59 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Em um dos julgamentos mais polêmicos ocorridos nos Estados Unidos, o West Memphis Three, em 1993, três adolescentes do Arkansas, Damien Echols, Jason Baldwin e Jessie Misskelley, foram presos pelo brutal assassinato de três crianças de oito anos. Acusados de satanismo, foram condenados à prisão perpétua e à pena de morte (no caso de Echols), em um processo cercado de controvérsias e erros investigativos.

O que os grupos de defesa de direitos alegavam, juntamente com uma série de livros e documentários, era que a acintosa imperícia da polícia havia condenado inocentes. E nos anos que se passaram, alguns famosos também levantaram essa bandeira, como o ator Johnny Depp, a banda Metallica e o diretor Peter Jackson (que produziu o documentário “West of Memphis”, 2012, denunciando as falhas no processo).

Junta-se ao coro, agora, o diretor canadense Atom Egoyan, cuja naturalidade para esmiuçar o comportamento humano (como em “O Fio da Inocência”) cabe muito bem para retratar esta história, em “Sem Evidências”. Aqui, ele se baseia no livro investigativo da premiada jornalista norte-americana Mara Leveritt (“Devil’s Knot”, 2002), que se aprofunda nos procedimentos legais que construíram o julgamento e a falta de provas convincentes sobre a relação do trio com o crime.

Como colaboradora do roteiro assinado por Paul Harris Boardman e Scott Derrickson (ambos de “O Exorcismo de Emily Rose”), há muito das hipóteses levantadas por Leveritt no filme. Como as suspeitas que recaem sobre um dos padrastos das vítimas, Terry Hobbs (Alessandro Nivola), no pai adotivo de outra, John Mark Byers (Kevin Durand) ou mesmo sobre um rapaz atordoado e repleto de sangue, que passa por um restaurante perto do local do crime pouco depois do ocorrido.

Mas é no investigador particular Ron Lax (Colin Firth) e na mãe desamparada Pam Hobbs (Reese Whiterspoon) que Egoyan foca sua atenção. O primeiro, contrário à pena de morte (ainda mais para rapazes possivelmente inocentes) corre para ajudar a defensoria pública no caso, de graça. Já Pam mostra-se perdida entre o julgamento público (próximo de um linchamento), as evidências dúbias e a dor do luto.

O diretor expõe as fragilidades de seus personagens, dos principais aos coadjuvantes, que alimentaram o julgamento sumário (inclui aí uma crítica nada sutil também ao circo midiático). E então, com a paciência e sobriedade que lhe são características, ele sistematicamente estilhaça todas as certezas da história oficial, alimentando no espectador fortes dúvidas sobre os reais culpados.

Certamente, um dos pontos altos deste trabalho recai sobre o elenco, que compartilha a preocupação com a tragédia. A sutileza com que mostram a impotência ou beligerância frente às circunstâncias estão bem alinhadas ao que Egoyan preza em seu cinema. Um exemplo é a expressão de perplexidade e inadequação do detetive Bryn Ridge (Robert Baker), ao ser confrontado sobre por que não investigou pistas contundentes que levariam o julgamento a outro desfecho.

Os três condenados, fato público e desconcertante, foram libertados em 2011, por um mecanismo legal que não os eximiu de culpa, mas considerou tempo de prisão cumprido. Uma espécie de inocência, ainda que culpada. Jason Baldwin e Jessie Misskelley, aliás, são produtores do filme.

(Por Rodrigo Zavala, do Cineweb)* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb