23 de Julho de 2014 / às 21:34 / em 3 anos

Morre o escritor paraibano Ariano Suassuna aos 87 anos

O escritor Ariano Suassuna participa da maratona escolar Ariano Suassuna, no Teatro R. Magalhães Jr., no Rio de Janeiro, em novembro de 2012. 08/11/2012 REUTERS: Divulgação/ABL/Guilherme Gonçalves

RIO DE JANEIRO (Reuters) - O escritor e dramaturgo paraibano Ariano Suassuna morreu nesta quarta-feira em Recife aos 87 anos, vítima de complicações decorrentes de um acidente vascular cerebral hemorrágico, informou a assessoria de comunicação do Real Hospital Português em comunicado.

O intelectual, que em agosto do ano passado já havia sofrido um infarto seguido de aneurisma cerebral, estava internado desde a segunda-feira à noite após ter sofrido um AVC do tipo hemorrágico. Ele foi submetido a cirurgias para redução da pressão intracraniana, mas não resistiu e morreu às 17h15 desta quarta-feira.

“O paciente teve uma parada cardíaca provocada pela hipertensão intracraniana”, afirmou a assessoria do hospital em comunicado à imprensa.

Suassuna foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1989 e ocupava a cadeira número 32. Outros dois membros da ABL morreram neste mês: Ivan Junqueira e João Ubaldo Ribeiro.

A presidente Dilma Rousseff lamentou a morte de Suassuna em nota, dizendo que o país perdeu uma grande referência cultural e que a sua obra é essencial para a compreensão do Brasil.

“Escritor, dramaturgo e poeta, Ariano Suassuna foi capaz de traduzir a alma, a tradição e as contradições nordestinas em livros... Guardo comigo ótimas recordações de nossos encontros e das suas histórias”, afirmou Dilma.

Com a vida intimamente ligada às artes cênicas e dotado de um carisma singular junto ao público, Suassuna manteve-se ativo até o último momento, apresentando-se recentemente em uma série de concorridas e bem-humoradas aulas-espetáculo, nas quais discorria sobre a própria biografia, entre outros temas. 

    Ele subiu ao palco pela última vez na sexta-feira, quando deu uma palestra sobre o compositor Capiba, mestre do frevo pernambucano, como parte da programação do Festival de Inverno de Garanhuns, no agreste de Pernambuco.

    Ariano Vilar Suassuna nasceu em João Pessoa em 3 de agosto de 1927, quando a cidade ainda se chamava Nossa Senhora das Neves e o Estado era governado por seu pai, João Suassuna. Mudou-se em 1942 para Recife, onde se formou em Direito e deu início à sua carreira como dramaturgo com a peça “Uma Mulher Vestida de Sol” (1947).

    Entre as obras mais famosas da sua premiada atividade teatral estão as comédias “O Santo e a Porca”, “A Farsa da Boa Preguiça” e o “Auto da Compadecida” (1955), peça que projetou seu nome nacionalmente e manteve enorme popularidade ao longo das décadas, sendo adaptada para TV e cinema.

    Foi também professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco e um destacado agitador cultural, liderando a agremiação de artistas e músicos que deu origem em 1970 em Recife ao Movimento Armorial, uma forma de expressão erudita nordestina, sobretudo musical, resultante do estudo das expressões populares tradicionais.

Suassuna também obteve notoriedade por sua obra como romancista, incluindo livros como o épico “Romance d‘A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”, inspirado em manifestações populares de cunho sebastianista do município de São José do Belmonte, no interior de Pernambuco, onde o escritor viria a erguer um santuário dedicado a figuras sagradas e profanas.

Na política, ele foi membro fundador do Conselho Nacional de Cultura e secretário de Cultura de Pernambuco no governo de Miguel Arraes, entre 1994 e 1998. Suassuna voltaria a integrar o governo de Pernambuco como titular da Secretaria de Assessoria ao Governador na gestão do neto de Arraes, Eduardo Campos, cuja mulher é sobrinha do escritor.

O presidente da ABL, Geraldo Holanda Cavalcanti, determinou o cumprimento de luto oficial de três dias e disse que a morte de Suassuna “confrange e entristece a Academia Brasileira de Letras”.

“Ariano reunia em sua pessoa as extraordinárias qualidades de homem de letras e de intelectual no melhor sentido da palavra, alguém que, dispondo de uma cultura invulgar, era, ao mesmo tempo, um homem de ação”, disse Cavalcanti em nota.

Segundo a ABL, Suassuna deixa a viúva Zélia Suassuna, com quem teve os filhos Joaquim, Maria, Manoel, Isabel, Mariana e Ana.

Por Felipe Pontes, no Rio de Janeiro, com reportagem adicional de Bruno Marfinati, em São Paulo

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