ESTREIA–Casal de vampiros cultos é o diferencial de “Amantes Eternos”

quarta-feira, 13 de agosto de 2014 16:23 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Numa descrição rasa, “Amantes Eternos” seria uma espécie de “Crepúsculo” para adultos interessados por arte. Obviamente, essa definição não contempla a densidade e humor do filme de Jim Jarmusch (“Flores Partidas”).

Protagonizado por Tilda Swinton e Tom Hiddleston, o longa cheio de estilo é uma celebração aos valores da beleza estética que tenta pairar sobre a ruína do caos financeiro de nosso tempo.

Tilda é Eve, vampira milenar moradora de Tânger, que à noite vaga pelos becos da cidade marroquina a caminho de um bar onde encontrará o dramaturgo Christopher Marlowe (John Hurt), supostamente morto em 1593, mas que, vampiro como ela, atravessou os séculos e hoje se arrepende por não receber os créditos pela colaboração com Shakespeare. Ele também é uma espécie de mestre dela, e todo dia lhe fornece sangue humano – uma vez que ela se recusa a caçar suas presas, pois está mais interessada em literatura.

Adam (Hiddleston) vive numa Detroit destruída, apenas uma sombra do centro industrial que foi no passado. São fábricas e galpões abandonados que servem de cenário para os passeios noturnos do vampiro. Ele foi um músico famoso, e ainda é objeto de culto por adolescentes que se plantam na porta de sua casa, sem nunca serem recebidos. O jovem Ian (Anton Yelchin) é um de seus contatos com o mundo externo, fornecendo-lhe instrumentos musicais raros. O outro é o Dr. Watson (Jeffrey Wright), funcionário de um banco de sangue que lhe vende seu alimento de tempos em tempos.

Eve e Adam têm uma relação apaixonada que a distância não enfraqueceu: o tempo só a fortalece. São dois aristocratas que já viram de tudo e agora se devotam à arte. Na mala dela, veem-se obras de Samuel Beckett, Miguel de Cervantes e David Foster Wallace. Na parede da velha casa dele, fotografias de Franz Kafka, Jane Austen, Patti Smith, Bruce Lee, Buster Keaton e Tom Waits, entre outros.

O casal tem (literalmente) todo o tempo do mundo para apreciar todas as formas de arte sem pressa. Enquanto os demais mortais – a quem a dupla chama de “zumbis” – vagam perdidos em suas existências vazias, centrados no trabalho e outras coisas mundanas, perdendo a capacidade de admirar a beleza estética.

Adam fica tão incomodado com isso a ponto de tentar o suicídio, o que faz Eve voltar para os Estados Unidos para o reencontrar e tentar salvar sua “vida”. Juntos, vagam pelas ruínas de uma cidade agonizante. Num antigo teatro, por exemplo, ele lhe mostra toda a beleza arquitetônica e os dois imaginam o que foi visto ali nos dias de glória do lugar – agora, um decrépito estacionamento. Não por acaso, Adam está deprimido.

O maior problema do casal, no entanto, é a falta de sangue. O momento da alimentação é uma espécie de êxtase que os faz virar a cabeça para trás e se entregar a devaneios. Eles têm uma espécie de pacto de não matar humanos, nem transformá-los em vampiros. Porém, a irmã de Eve, Ava (Mia Wasikowska) não é tão centrada quanto eles, e a sua chegada desestabiliza a paz vampiresca do casal.

Podem a arte e a beleza sobreviver em tempos de crise econômica?, pergunta o filme. Como a arte pode existir numa época em que tudo se transformou em mera mercadoria? Ainda há espaço para a beleza estética? Em meio a um mundo devastado pelo dinheiro (ou a ausência deste), o casal de vampiros se esforça para manter viva (quanta ironia!) a tradição cultural do Ocidente. Os artistas sucumbem (vide a trajetória de Marlowe), e o que vai restar aos admiradores?   Continuação...