14 de Agosto de 2014 / às 15:19 / em 3 anos

ESTREIA-"Não Pare na Pista..." retrata Paulo Coelho antes do sucesso

Escritor Paulo Coelho participa de entrevista à imprensa na feira do livro de Frankfurt, na Alemanha. 14/10/2008 REUTERS/Alex Grimm

SÃO PAULO (Reuters) - Se a vida do escritor carioca Paulo Coelho já rendeu pelo menos um livro – “O Mago”, sua biografia escrita por Fernando Morais – nada mais natural do que se desenvolver também num filme, ainda mais tendo em vista a fama internacional do autor. É o que acontece em “Não Pare na Pista – a melhor história de Paulo Coelho”, de Daniel Augusto, que abriu, fora de competição, o mais recente Festival de Paulínia, em julho.

Focando-se na juventude e na vida adulta do escritor antes do sucesso, o filme roteirizado por Carolina Kotscho (“2 Filhos de Francisco”) estruturou-se menos pela biografia de Fernando Morais e mais por diversas entrevistas realizadas diretamente com o personagem – que, segundo a roteirista e o diretor, em Paulínia, não teria interferido na produção, embora tenha aprovado o resultado.

Dois atores irmãos na vida real interpretam o protagonista: Ravel Andrade na juventude, Júlio Andrade (“Gonzaga – De Pai pra Filho”), na vida adulta (inclusive na velhice, quando aparece sob uma pesada maquiagem).

Na primeira fase, estão os conflitos mais acirrados com o pai engenheiro e rígido, Pedro (Enrique Diaz), que não quer nem ouvir falar no projeto do filho de ser escritor. Para o pai, Paulo precisa de uma profissão estável. Ser escritor não se qualificaria a isto.

A divergência entre os dois aumenta à medida que o filho mergulha na onda de sua época, os anos 1960, embalado em drogas e rock‘n‘roll. Não demora muito e Pedro manda internar Paulo num hospital psiquiátrico para livrá-lo da suposta dependência das drogas. É o primeiro contato do jovem com o inferno da repressão, dos eletrochoques. Não será o último.

Adulto, Paulo mergulha cada vez mais na contracultura, editando uma revista de ufologia – que será o elo que lhe permite o encontro com o roqueiro Raul Seixas (Lucci Ferreira). Os assuntos mágicos e esotéricos darão a ponte para um relacionamento de amizade e parceria, que renderá sucessos musicais como “Sociedade Alternativa” e “Gita”.

Apesar da ruptura dolorida que se produziu entre ambos, a partir do momento em que Seixas não admitiu publicamente a coautoria de Coelho em “Gita”, o enredo não deixa de registrar a dívida do futuro autor de bestsellers com o músico, que teria lhe dado conselhos fundamentais no sentido de enxugar sua prosa.

Pulando o tempo todo de um período a outro na vida do escritor – inclusive na maturidade, quando ele realiza uma intempestiva nova viagem a Santiago de Compostela com a mulher (Fabiana Gugli) -, o filme dificulta a conexão emocional do espectador com seu protagonista.

A viagem a Santiago de Compostela, especialmente, parece sobrar na história e ser mantida para justificar a parceria da Espanha na coprodução do filme – que tem no seu elenco a atriz Paz Vega (“Lúcia e o Sexo”), que sintetiza em sua personagem várias mulheres que passaram na vida do escritor.

Até por Ravel e Júlio de Andrade serem dois intérpretes generosos, de muitos recursos, assim como Enrique Diaz, não é menos verdade que o roteiro nem sempre os serve a contento.

Duas boas cenas saltam à vista – aquela em que o pai ouve pelo rádio uma música a ele dedicada pelo filho; e uma outra em que Paulo vira o jogo contra um torturador, numa prisão durante a ditadura, passando-se por mais louco do que realmente é.

A literatura de Paulo Coelho, afinal, não é objeto de “Não Pare na Pista...”, que é uma espécie de “prequel” do próprio personagem midiático. O que talvez não seja satisfatório do ponto de vista de seus milhões de fãs, compradores de seus livros. Como retrato de época, também fica devendo muito.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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