ESTREIA–Irregular e inócuo, “Rio, Eu Te Amo” é catálogo de paisagens e patrocinadores

quarta-feira, 10 de setembro de 2014 15:47 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Terceiro longa coletivo do projeto criado pelo francês Emmanuel Benbihy chamado “Cidades do Amor”, “Rio, Eu Te Amo”, que estreia na quinta-feira, tem altos e baixos como todo filme de episódio, mas nada muito alto, nem muito baixo, o que, no fim, se revela apenas um catálogo de paisagens e patrocinadores.

Ao todo, são 10 episódios, além de alguns segmentos que deveriam fazer uma transição entre eles, protagonizados por uma professora-tradutora (Claudia Abreu) e um taxista (Michel Melamed). Poucos desses episódios realmente só poderiam se passar no Rio de Janeiro, os demais, caberiam sem muita alteração em qualquer canto do mundo.

Aparentemente, o único que realmente precisa ser situado no Rio é um protagonizado por Wagner Moura e o Cristo Redentor, e dirigido por José Padilha. Nele, o eterno Capitão Nascimento sobrevoa a cidade numa asa delta, e quando se depara com a estátua gigantesca faz alguns questionamentos.

Como os episódios têm cerca de 10 minutos, nenhum deles consegue tempo hábil para desenvolver personagens, fazer uma narrativa realmente densa.

Cabe aos diretores e seus roteiristas lidarem bem com isso –o que é um tremendo desafio, que nem sempre alcança êxito. Corre-se o risco de transformar a narrativa apenas numa anedota, como é o caso do curta do italiano Paolo Sorrentino (“A Grande Beleza”), que envolve uma dondoca inglesa (Emily Mortime) e seu marido bem mais velho que parece à beira da morte (Basil Hoffman). Ou ainda outro, do sul-coreano Im Sang-Soo, protagonizado por Tonico Pereira, como um maitre bem peculiar.

Dos cineastas brasileiros, quem se sai melhor é Fernando Meirelles, cujo filme sem diálogos encontra no som as peculiaridades do calçadão de Copacabana.

O francês Vincent Cassel (que mora no Rio) é um escultor de areia que se apaixona por uma moça, para se decepcionar mais tarde, e materializar isso em sua obra. Já o animador Carlos Saldanha (“Rio”) estreia na direção de não animação, e um balé de sombras de seu curta é uma das melhores coisas do conjunto.

São tantos os personagens e tantos os clichês que alguns até soam perdidos. Por isso, o trabalho de alguns atores parece ter sido cortado na sala de edição – como é o caso de Cleo Pires, Caio Junqueira e Márcio Garcia, cujas aparições indicam que poderia haver mais cenas que acabaram ficando de fora.

Ao final, “Rio, Eu Te Amo” -assim como os outros dois filmes da série sobre Paris (2006) e Nova York (2012)-– se mostra um tanto superficial. A prefeitura do Rio queria que Woody Allen filmasse na cidade. O cineasta até cogitou, mas o projeto acabou não se consolidando, e, aparentemente, se contentaram com esse filme agora exibido.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

 
Ator francês Vincent Cassel, que atua em "Rio, Eu te Amo". 19/03/2014 REUTERS/Luke MacGregor