ESTREIA–Drama polonês “Ida” revisita fantasmas do Holocausto

terça-feira, 23 de dezembro de 2014 14:12 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Indicado ao Globo de Ouro e integrante da pré-lista de nove candidatos ao Oscar de filme estrangeiro, o drama polonês “Ida”, do diretor Pawel Pawlikowski, afirma sua vocação para a sobriedade a partir da fotografia sutil em preto-e-branco, garantindo prêmios como da Associação Americana dos Diretores de Fotografia.

Apesar de o filme revisitar um tema exaustivamente retratado no cinema, as marcas do Holocausto, o roteiro, assinado por Pawlikowski e Rebecca Lenkiewicz, o faz de maneira singular, a partir dos olhos de uma jovem noviça, Anna (a estreante Agata Trzebuchowska).

A madre superiora do convento (Halina Skoczynka) revela a Anna que ela tem uma tia e insiste que deve conhecê-la antes de assumir seus votos de freira. Este encontro com Wanda Gruz (Agata Kuleska) sustenta o eixo da história, já que as duas representam sempre polos opostos de uma realidade cuja complexa dramaticidade cresce a cada cena, sem que para isso o diretor recorra a qualquer excesso melodramático.

Aos 18 anos, Anna não conhece nada além do convento, lugar protegido das contradições do mundo lá fora. O ano é 1962. A Segunda Guerra há muito ficou para trás, a Polônia é um país socialista, sob influência da URSS. Wanda foi parte ativa do movimento de resistência antinazista e, depois, do sistema judicial que puniu os carrascos dos judeus. O que Anna não sabia até ali é que ela mesma é parte das vítimas do Holocausto.

Seu verdadeiro nome é Ida Lebenstein e foi entregue ao convento ainda bebê. Seus pais desapareceram. Mas Wanda tem uma ideia de onde podem estar enterrados e leva a sobrinha a uma viagem de dolorosa descoberta de suas raízes.

A espinha dorsal da história é este confronto permanente entre Anna/Ida, jovem inocente que resiste ao próprio mundo externo, e a tia madura, vivida, cínica, conhecedora de vícios e prazeres que a sobrinha abomina, mas desconhece.

A direção de Pawlikowski evita qualquer maniqueísmo e permite que essas duas excepcionais intérpretes desdobrem as camadas de personagens muito ricos, que procuram lidar com o peso do passado e da história de um país muito particular. A experiente Agata Kuleska, em especial, é um primor na composição de uma personagem cuja amargura nunca se afasta de uma singular dignidade.

Claramente, são maiores as possibilidades de escolha de Anna/Ida, a partir de seus próprios novos sentimentos e de contatos como o saxofonista Lis (David Ogrodnik), que se apresentava num hotel em que as duas se hospedaram.

Melhor ainda que o diretor acredite mais na força das belas e contundentes imagens do que num palavrório excessivo, deixando a história encontrar o próprio ritmo suavemente, abrindo as portas à participação da imaginação e dos sentimentos do espectador.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

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