Ataque a jornal francês deve aprofundar a "guerra cultural" na Europa

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015 12:03 BRST
 

Por Paul Taylor

PARIS (Reuters) - O ataque com 12 mortos contra uma jornal semanal de sátiras francês que zombou do islamismo parece prestes a dar combustível para os movimentos anti-imigração em toda Europa e inflamar a "guerra cultural" sobre a posição da religião e da identidade étnica na sociedade.

A primeira reação na França às mortes na redação do jornal Charlie Hebdo, na quarta-feira, por dois homens armados e mascarados que gritavam slogans islâmicos foi uma efusão de apoio à unidade e liberdade de expressão nacional.

Mas isso parece provável que seja pouco mais do que um cessar-fogo momentâno em um país dominado pelo mal-estar econômico e alto desemprego. A França tem a maior população muçulmana da Europa e está no meio de uma discussão intensa sobre a identidade nacional e o papel do Islã.

"Este ataque certamente vai acentuar a crescente islamofobia na França", disse Olivier Roy, cientista político e especialista em Oriente Médio do Instituto da Universidade Europeia em de Florença.

Um livro do jornalista Eric Zemmour intitulado "Le Suicide Français” (O Suicídio Francês), argumentando que a imigração muçulmana em massa está entre os fatores que vêm destruindo os valores seculares franceses, foi o ensaio mais vendido de 2014.

O principal lançamento de publicação do ano até o momento é um romance do controverso escritor Michel Houellebecq que imagina a vitória de um muçulmano à Presidência da França em 2022, que impõe como lei o ensino religioso obrigatório e a poligamia e proíbe as mulheres de trabalhar.

Essa efervescência intelectual se mistura à ansiedade na população com as radicalização de centenas de muçulmanos franceses que se uniram aos combatentes do Estado islâmico na Síria e no Iraque, e que as autoridades do setor de segurança temem que possam provocar ataques ao retornarem à França.

A Frente Nacional, de extrema-direita, não perdeu tempo em vincular o ato mais letal de violência política em décadas à imigração e exigir um referendo para restabelecer a pena de morte, apesar de um líder muçulmano francês, o ímã Hassen Chalghoumi, ter dito que o caminho certo para combater o Charlie Hebdo não era com derramamento de sangue ou ódio.   Continuação...

 
Mulher segura cartaz em homenagem a vítimas de ataque a jornal Charlie Hebdo em Paris, durante cerimônia em Xangai. 09/01/2015 REUTERS/Aly Song