ESTREIA-Reese Witherspoon vive mulher atormentada pelo passado em "Livre"

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015 16:55 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Em sua primeira cena, “Livre” aponta para um caminho que, infelizmente, não segue por completo. A jovem Cheryl Strayed (Reese Witherspoon) para no alto de um penhasco. Seus pés estão em frangalhos. Seu estado de visível irritação é um contraste gritante com a paz local da natureza solitária e serena. Jogar longe sua bota estropiada, enquanto berra, é um exorcismo – e é também uma forma encontrada pelo longa do canadense Jean-Marc Vallée para negar uma visão romantizada da jornada da moça.

Depois de perder a mãe e fazer muitas bobagens na vida, Cheryl resolve que sua salvação estará em fazer a pé a trilha Pacific Crest Trail, que vai da fronteira dos EUA com o México até o Canadá.

Sem muita experiência na prática, e muitos fantasmas com os quais entrar em batalha, a garota, que tinha 26 anos na época, passa 150 dias caminhando, cruzando diversos Estados de seu país, enfrentando obstáculos e conhecendo pessoas.

O filme parece buscar nos traumas do passado distante – pai alcóolatra e abusivo, mãe omissa – as explicações para a Cheryl do passado recente, envolvendo drogas e comportamento errático.

É preciso simpatizar com a protagonista e sua causa para embarcar em sua jornada –algo que se torna difícil dadas as idas e vindas no tempo, fraturando o desenvolvimento da narrativa sem muito critério.

Baseado no livro de memórias da própria Cheryl, com roteiro do escritor inglês Nick Hornby, ”Livre” é repleto de boas intenções, mas raso em seu alcance, especialmente quando se torna emocionalmente manipulador – com os flashbacks envolvendo a mãe (Laura Dern) e a jornada autodestrutiva de Cheryl nos últimos anos.

A trilha, para ela, se torna uma espécie de Caminho de Santiago de Compostela – uma jornada espiritual que ela imagina que lhe trará a redenção, com pouco contato com outras pessoas. Como se fosse simples assim.

A direção de Vallée (“O Clube de Compras Dallas”,“C.R.A.Z.Y.”) transforma a busca de Cheryl em algo redundante, não conseguindo passar maior densidade a esse processo da personagem - como se sofrimento, arranhões e, usando as palavras da própria Cheryl, “gororoba fria” fossem suficientes para transformá-la em outra pessoa.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

 
Atriz Reese Witherspoon na premiação do festival de Palm Springs. 3/1/2015 REUTERS/Danny Moloshok