ESTREIA-Drama "Depois da Chuva" retrata Diretas Já sob olhar de jovem

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015 17:06 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Em meados dos anos 1980 o Brasil vivia um momento intenso de transição política com as manifestações pela volta das eleições diretas. Na mesma época, o grupo porto-riquenho Menudos fazia sucesso no país e o Genius era um dos brinquedos mais desejados pelas crianças.

É aí que o jovem Caio (Pedro Maia, ganhador do prêmio de melhor ator no Festival de Brasília de 2013) começa a descobrir o mundo, ao se envolver com um grupo de rebeldes. “Depois da Chuva” acompanha essa transformação, mas é também um filme sobre as ilusões perdidas, sobre a construção e a fugacidade das utopias.

Escrito por Cláudio Marques e codirigido por ele e Marília Hughes, “Depois da Chuva” é um filme de nostalgia, mas sem o pó do tempo que é capaz de vir junto quando se faz algo do gênero.

As dúvidas e inquietações --até mesmo os equívocos-- de Caio ecoam até hoje na juventude que toma as ruas. Por isso, é um filme que pulsa com o sangue juvenil da revolução mesmo que essa, seja abortada antes mesmo de começar.

Os diretores partem do universo pessoal de Caio para fazer um paralelo com o momento histórico do Brasil da época do filme. Calado e introspectivo, Caio é um jovem de ideias fortes, que se envolve com um grupo anarquista, responsável por uma rádio pirata chamada O Inimigo do Rei.

Logo na primeira cena, sabe-se que foram liberadas eleições para representante estudantil na escola onde ele estuda, mas é a diretoria que irá escolher um nome entre os três mais votados. Surge, então um impasse entre o grupo: aceitar e garantir o pouco que conseguiram ou lutar por mais, e correr o risco de perder tudo.

O longa aborda um período rico de nossa história e pouco explorado pelo cinema: as Diretas Já. Ao mesmo tempo, de forma sutil, explora o tema da construção do herói pela mídia, quando Tancredo Neves, eleito de forma indireta, adoeceu pouco antes de sua posse.

A imprensa --especialmente a televisão-- o transformou no mártir que o momento pedia. É por meio de reportagens da época que vemos, com os olhos de Caio, esse processo, que, como se sabe, iria culminar no governo de José Sarney e na frustração de várias expectativas.

Experientes curta-metragistas, Marília e Marques estreiam com segurança em longa-metragem, criando um filme reflexivo sobre como o processo político está inserido na vida pessoal, mesmo a contragosto ou quando sequer nos damos conta disso.   Continuação...

 
Cena do filme "Depois da Chuva" dos diretores Cláudio Marques e Marília Hughes. 14/01/2015 REUTERS/Agnes Cajaíba/Divulgação