ESTREIA–Indicado a 9 Oscars, “Birdman” satiriza bastidores da indústria do espetáculo

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015 16:14 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - “Birdman Ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)”, do mexicano Alejandro González Iñárritu, desconstrói, com fôlego e humor invejáveis, os bastidores de uma indústria do entretenimento que produz em série filmes sobre super-herois.

E faz isso através da história de um veterano ator, Riggan Thomson (um Michael Keaton em forma dramática nunca vista), que tenta superar seu passado na pele de um herói-pássaro produzindo para si mesmo uma peça teatral em que busca prestígio intelectual, encenando texto de Raymond Carver.

Iñárritu sai de sua zona de conforto, criando um filme de temperatura emocional  muito diferente de seus celebrados “Amores Brutos”, “21 Gramas” e “Biutiful”. Assim como Michael Keaton, que se expõe, como seu personagem, de modo franco e total.

Mesmo para aqueles que não admiram particularmente o trabalho do ex-Batman como ator, “Birdman...” é uma grata surpresa. Não por acaso, o filme vem colecionando prêmios, como o de melhor elenco no Sindicato dos Atores dos Estados Unidos e nove indicações ao Oscar, incluindo as cobiçadas melhor filme, diretor e ator.

As premiações são uma consagração para os muitos riscos corridos tanto pelo diretor, ao abandonar o registro um tanto estetizante de seus trabalhos anteriores para criar um filme que mistura vários gêneros e nunca facilita a vida do espectador sendo palatável, além de oferecer chances de ouro a cada um de seus atores de ultrapassarem seus limites.

Keaton se desnuda aqui, metafórica e literalmente, numa caminhada em plena Times Square de Nova York, para agarrar visceralmente este papel de um ator que tenta livrar-se da sombra de ter sido intérprete de um super-herói (detalhe até autobiográfico na vida de Keaton) e de outros fantasmas pessoais e profissionais, dando-lhe a oportunidades de despojar-se da própria imagem e atingir excelência de interpretação.

Ao seu lado, Emma Stone, Edward Norton e Amy Ryan também dão o sangue em interpretações de gala.

O que “Birdman...” tem de mais interessante é a integridade de sua confecção. A câmera inquieta nos bastidores de um teatro segue personagens – especialmente o protagonista – de modo nervoso em longos planos-sequência, o que cria uma correspondência total com sua instabilidade emocional, com sua ansiosa procura.

É o paradigma de um labirinto e também desse huis clos do teatro, onde os atores fazem a sua morada, se digladiam, movem suas próprias fronteiras. Algo como um sofisticado zoológico humano que a câmera, como uma lente de laboratório de emoções, tenta capturar.   Continuação...

 
Elenco do filme "Birdman" recebe prêmio de melhor elenco durante cerimônia do Screen Actor's Guild Awards em Los Angeles. 25/01/2015 REUTERS/Mario Anzuoni