ESTREIA-Disputa entre casal por autoria de quadros famosos é o tema de "Grandes Olhos"

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015 16:45 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Platinada, frágil e sufocada por um homem opressor, Amy Adams poderia muito bem ser uma musa hitchcockiana em "Grandes Olhos". Mas, afinal, ela é uma ilustre desconhecida pintora no filme dirigido por Tim Burton sobre o casal Margaret e Walter Keane (Amy e Christoph Waltz) e seus famosos quadros de crianças de olhos desproporcionalmente gigantescos, que se tornaram sucesso nos anos de 1960.

Separada do marido e com uma filha pequena, Margaret, nascida Peggy Doris Hawkins, ruma para San Francisco, onde espera viver de sua pintura. Tudo o que consegue é um emprego pintando decorações em berços.

Na mesma feira, onde, aos domingos, tenta vender seus quadros de crianças estranhas, conhece Walter. Ele também é um pintor amador, cuja obra se resume a paisagens urbanas parisienses.

Depois de se casarem, Walter arrenda o corredor de acesso aos banheiros em um nightclub e tenta vender quadros dos dois. Mas quando as pinturas de Margaret começam a chamar mais a atenção – e render mais dinheiro – do que as dele, Walter finge ser o autor das obras.

Se num primeiro momento, para Margaret ele parecia ser um cara legal, doce e amável, agora revela-se um lado inteiramente diferente. Walter – que também já foi corretor imobiliário – tem tino para venda, especialmente para a autopromoção.

Há uma cena, ao mesmo tempo assustadora e reveladora, que começa com Margaret no supermercado pegando uma lata de sopa de rótulo vermelho de uma prateleira meticulosamente arranjada – uma recriação da famosa obra de Warhol.

É o sinal de um tempo e Walter, mais do que ninguém, está sintonizado com ele – além dos quadros, que ainda vendem muito, ele pode lucrar com pôsteres, bem mais baratos e acessíveis a quem não tem dinheiro para um original.

Esses cartazes são, no fundo, a cópia da cópia, uma vez que originalidade nunca foi o traço definidor da arte de Margaret. E em “Grandes Olhos”, Burton – trabalhando com um roteiro de Scott Alexander e Larry Karaszewski – quer dizer algo exatamente sobre estilo e esvaziamento a partir da reprodução.

Ele que é um diretor conhecido por seu estilo peculiar, tantas vezes copiado (sem muito sucesso), e, talvez, já exaurido e em busca de novos caminhos. A abertura do filme, com reproduções idênticas saindo de uma máquina, todas iguais, todas replicando uma mesma pintura feia de Margaret, faz lembrar o título de um famoso ensaio de Walter Benjamin: “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”.   Continuação...

 
A atriz Amy Adams, do filme "Grandes Olhos, chega a um evento em Los Angeles, nos Estados Unidos. 15/01/2015 REUTERS/Kevork Djansezian