ESTREIA–“Dois Dias, uma Noite” faz retrato preciso do mundo do trabalho contemporâneo

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015 15:58 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - A classe operária pode até ir ao paraíso – mas antes disso passa por um calvário de exploração do trabalho na Terra mesmo. Marion Cotillard interpretando a protagonista de “Dois Dias, Uma Noite”, dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, é a heroína da vez, uma figura frágil, às vezes determinada, outras, vítima de sua própria delicadeza. A atriz foi, merecidamente, indicada ao Oscar.

Marion é Sandra, operária de uma fábrica, que acaba de ser demitida. Mas seu chefe lhe propõe um acordo: se os 16 colegas dela abrirem mão do bônus de 1.000 euros que devem receber, ela poderá manter seu emprego. A questão é que a demissão dela já passou por uma votação por essas mesmas pessoas, e Sandra tem um final de semana (daí o título) para convencer a maioria de seus colegas a mudarem seus votos, numa nova rodada que acontecerá na segunda-feira pela manhã.

Sandra e o marido, Manu (Fabrizio Rongione), moram numa casa confortável – bem diferente da habitação social em que viviam antes de alcançar essa condição que agora está ameaçada. Ele é chefe de cozinha, e o casal tem duas filhas. Se ela perdesse o emprego, o padrão de vida da família – que está longe de ser muito alto – estaria ameaçado, além da frágil saúde emocional da protagonista.

Também assinado pelos diretores, o roteiro revela aos poucos questões subjacentes que acrescentam novas camadas às personagens e à narrativa.

Sandra está doente – tanto que já cumpriu licença médica -, sofrendo de uma depressão. Isso influencia suas atitudes, porque além de tomar comprimidos um atrás do outro, como se fossem balas de hortelã, a protagonista, cujos olhos sempre parecem marejados, preferia estar deitada em sua cama, coberta até a cabeça, em vez de pedir a piedade de seus colegas de trabalho.

Ainda assim, ela vai dolorosamente à casa de cada um e faz a pergunta da qual seu futuro depende. Os Dardenne não nos poupam de nenhum desses encontros. Tal qual Sandra, precisamos enfrentar cada um deles, com um nó na garganta. Todos começam mais ou menos com o mesmo protocolo: apertos de mãos educados, conversas amenas, até chegar ao que interessa. As respostas variam, desde a compaixão à violência, passando por todos os subtons que a disputa pela sobrevivência pode proporcionar. Afinal, “Dois Dias, Uma Noite” é sobre isso: a solidariedade da classe operária num mundo cada vez mais consumido pela ganância empresarial.

A questão que emerge, então, é: essa solidariedade pode existir ou é apenas uma utopia? No cinema da dupla belga, o humanismo é o que pode salvar as pessoas – a crença de que a humanidade pode ser boa. Isso eclode em filmes como “Rosetta” (1999) e “A Criança” (2005) – trabalhos que lhes renderam a Palma de Ouro em Cannes – ou no mais recente “O Garoto de Bicicleta” (2011).

Se um tema sempre presente – às vezes de forma mais sutil – é a exploração dos menos favorecidos, aqui isso é explícito. As visitas de Sandra às casas dos colegas compõem um painel da situação da classe operária na Europa dominada pela austeridade econômica e pela direita – uma conjuntura que parece apontar para uma mudança a longo prazo, aliás.

Há mais do que dinheiro em disputa aqui – valores morais também são uma questão. Mas os diretores não são ingênuos ou idealistas para pensar que o salário de cada um não teria um papel fundamental em suas decisões. A intersecção entre esses dois elementos ilustra, ao longo do filme, que no passado a solidariedade poderia prevalecer, mas, nos nossos tempos de capitalismo tardio e crise, a competitividade pauta as relações de trabalho, mesmo entre os iguais.   Continuação...

 
Atriz Marion Cotillard, de "Dois Dias, uma Noite", em Beverly Hills, Califórnia. 2/2/2015  REUTERS/Mario Anzuoni