ESTREIA-Nova "Annie" é conto de fadas para o consumo

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015 16:39 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - No início de “Annie”, o diretor e roteirista Will Gluck (de “Amizade Colorida”) já faz a distinção de seu filme e do musical homônimo de John Huston (de 1982). Na sala de aula de uma escola pública nova-iorquina, mostra a ruiva Annie A (inspirada no filme original) chateando seus colegas pela cantoria e dança, enquanto Annie B (Quvenzhané Wallis) é inspiradora com sua redação interativa, à la grupo musical Stomp.

Com a brincadeira, cria-se um pretexto para tentar superar comparações entre este trabalho e o anterior, muito além das diferenças étnicas ou culturais. Quer-se provar que os tempos mudaram e as crianças não se encantam mais com números chatos da Broadway, mas, sim, com o vigor e a atitude de seus jovens.

As decisões de Gluck para a adaptação, no entanto, causam espanto quando pensadas em contexto. A “Annie” de 1982, baseada nas tiras de jornal (iniciadas em 1924) e no musical da Broadway (de 1977), incorporava as divergências entre as práticas republicanas e democratas em meio ao New Deal, pós-crash da Bolsa de 1929, impactando a massa pobre e alguns ricos. Um pano de fundo que, inspirado em “Oliver Twist”, de Charles Dickens, retratava de forma amena conflitos sociais de uma época.

Já nesta nova versão, escancara-se o consumismo, a manipulação pela mídia, sem a dualidade entre pobreza e riqueza, apenas o flagrante pendor pelo luxo. Nas músicas (todas dubladas em português, única versão para os cinemas brasileiros), faz falta o “Tomorrow” (ou “Amanhã”, a música-tema) como um novo futuro coletivo, em vez do individualismo de uma vida melhor só para Annie.

Aqui, ela vive na casa da ex-cantora Hannigan (Cameron Diaz), que abriga Annie e outras jovens órfãs para capitalizar a ajuda governamental. Em suas andanças pela cidade, em busca dos pais, por quem foi abandonada, a menina acaba sofrendo um acidente e é salva pelo bilionário da telefonia móvel (uma espécie de Steve Jobs), Will Stacks, interpretado por Jamie Foxx.

O vídeo da benfeitoria viraliza na Internet e como Stacks está concorrendo à Prefeitura de Nova York, seu assessor político Guy (Bobby Cannavale) acredita que a presença da menina na campanha será vital para a vitória. Sobra para o braço direito do bilionário, Grace (Rose Byrne), fazer a adoção temporária da criança.

Do convívio entre o atarefado Stark e a encantadora Annie nasce uma amizade que o levará a querer adotá-la incondicionalmente. Isso até um plano entre Guy e Hannigan colocar tudo a perder. Num misto de compaixão e redenção, a produção se move não como um musical, mas, como diria o diretor francês Jacques Démy, “um filme popular com canções”.

Com assinatura do polivalente Jay-Z (responsável pela trilha sonora de “O Grande Gatsby”, de Baz Luhrmann), todas as músicas foram inteiramente dubladas para o público brasileiro (não haverá versão original em inglês nos cinemas). A escolha faz sentido quando pensada comercialmente para crianças, que poderiam perder-se nas legendas.

Mas o bom trabalho de Félix Ferra (que adaptou também as canções de “Frozen – Uma Aventura Congelante”) sofre um revés na pior situação da dublagem: a sincronização entre o que se ouve e o movimento facial, o famoso “lip sync”. Simplesmente, ela não acontece.   Continuação...

 
Atrizes Cameron Diaz e  Quvenzhane Wallis  na divulgação do filme "Annie", em Londres. 16/12/2014  REUTERS/Neil Hall