Filme romeno “Aferim!” confronta raízes do preconceito contra ciganos

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015 11:56 BRST
 

Por Alexandra Hudson

BERLIM (Reuters) - Enquanto alguns procuram a origem dos problemas sociais da Romênia em seu passado comunista, o diretor Radu Jude voltou ao início do século 19 em “Aferim!” para exibir um mundo de crueldade e preconceito profundo que ele acredita ainda influenciar atitudes nos dias de hoje.

O filme, um dos 19 concorrendo ao Urso de Ouro do Festival Internacional de Cinema de Berlim, acompanha a cacaça de um xerife e seu filho a um escravo cigano foragido. Ao mesmo tempo, sublinha um período pouco conhecido e perturbador da história dos ciganos, minoria da Romênia outrora escravizada em monastérios e feudos locais.

A produção está longe de ser um retrato bucólico de animadas tradições folclóricas nos pastos e nas florestas da região da Valáquia. Contundente, o filme em preto e branco mostra um clero ortodoxo preconceituoso, camponeses com filhos raquíticos e os ciganos desesperadamente pobres, chamados de “corvos” por seu “negrume”.

“Eu estava interessado em fazer um filme que explorasse a conexão entre passado e presente... e especificamente como problemas passados ainda moldam as mentalidades hoje”, disse Jude aos repórteres.

“Também quis colocar a questão de como julgamos o comportamento de alguém no passado, um comportamento que foi sancionado pelas leis e tradições daquela época”.

O xerife Costadin é um homem ávido por dinheiro e gratuitamente violento que preserva fielmente as injustiças sociais e rechaça qualquer fagulha de consciência de seu filho.

Costadin engole as justificativas bíblicas absurdas de um padre ortodoxo para a escravidão dos ciganos, assim como seu antissemitismo e sua xenofobia.

As mulheres são vistas como megeras ou prostitutas, úteis para pouca coisa além de trabalhar duro e ser espancadas pelos maridos. O escravo cigano Carfin, entretanto, é esperto e descreve com propriedade os horrores de sua existência.   Continuação...

 
Radu Jude, diretor do filme "Aferim!", em Berlim. 11/02/2015  REUTERS/Stefanie Loos