18 de Fevereiro de 2015 / às 17:03 / em 3 anos

ESTREIA–“Sniper Americano” discute guerra, heroísmo e trauma dos veteranos

SÃO PAULO (Reuters) - Seis indicações ao Oscar, inclusive melhor filme e ator (Bradley Cooper), uma bilheteria que já bateu a casa dos 392 milhões de dólares pelo mundo e um potencial inesgotável de polêmica formam a moldura do drama “Sniper Americano”, em que o octagenário diretor e produtor Clint Eastwood exerce suas melhores virtudes – e, para seus críticos, alguns de seus piores defeitos.

Clint Eastwood e Bradley Cooper, diretor e ator de "Sniper Americano", em Beverly Hills. 02/02/2015. REUTERS/Mario Anzuoni

Nada que diga respeito à técnica, porém. Até detratores do filme, os mais notórios sendo o diretor Michael Moore e o ator e diretor Seth Rogen, reconhecem que, em fotografia, montagem, som e tudo mais, o filme é impecável. A divergência está na política, mais precisamente, no modo de encarar a Guerra do Iraque.

Baseado nas memórias do ex-fuzileiro naval Chris Kyle, o filme reconstitui a experiência daquele que foi o mais exímio atirador até hoje das Forças Armadas norte-americanas, creditado com nada menos do que 160 mortes por sua impressionante pontaria. Um homem que é visto como herói por seus pares, para quem ele exerce o papel de protetor, localizando-se em cima de prédios, enquanto eles se dedicam a missões mais perigosas em solo, vasculhando casas e prédios no país ocupado.

Aí começa o problema. Os críticos lamentam que o filme não abra espaço para uma única contestação específica de uma guerra sabidamente declarada com falsos motivos pelo ex-presidente George W. Bush, ou seja, a existência de armas de destruição de massa.

Outro questionamento é o maniqueísmo extremo com que se retratam os iraquianos de modo geral, uma visão, aliás, fiel à maneira como Kyle se refere aos inimigos em seu livro, descritos como “selvagens”.

Embora seja notório o conservadorismo político de Eastwood, eleitor histórico do Partido Republicano e ex-prefeito de Carmel pela mesma legenda, é visível que o filme não economiza esforços numa quase obsessiva busca de autenticidade. Devido à impossibilidade de filmar no Iraque, parte da produção foi ambientada no Marrocos. O roteirista Jason Hall tornou-se íntimo de Kyle, até sua morte, em 2013, e, depois, de sua mulher, Taya.

O ator Bradley Cooper, intérprete de Kyle e produtor do filme, chegou a ter um contato telefônico com ele e, depois, teve acesso a muitos dos filmes familiares feitos por sua viúva.

Nem por isso, Hall e Eastwood limitaram-se à fidelidade total à biografia de seu protagonista. O dramático episódio que abre o filme, sobre o qual é melhor não adiantar muito para não estragar surpresas, foi eliminado das memórias de Kyle por determinação do Ministério de Defesa, a quem o ex-fuzileiro submeteu previamente o texto. Da mesma forma, nunca existiu um dramático diálogo entre Chris e seu irmão Jeff (Keir O’Donnell), mostrando uma divergência de sentimentos diante da guerra.

Outro acréscimo a que se permitiram o roteirista e o diretor foi uma ampliação do perfil de Mustafa (Sammy Sheik), o atirador de elite iraquiano que trava, no filme, um duelo com Kyle digno de figurar nos melhores faroestes. Em sua biografia, o ex-fuzileiro não dedicou a este personagem mais do que algumas míseras linhas.

Por outro lado, é indiscutível que “Sniper Americano” não faz, a rigor, uma celebração da guerra em si. Pelo contrário. Com realismo documental, o filme reproduz as condições insuportáveis de perigo e tensão a que os soldados são submetidos diariamente. E coloca na boca de alguns deles dúvidas sobre o sentido de estarem ali, embora de uma forma genérica.

Não se pode afirmar, igualmente, que “Sniper Americano” simpatize cegamente com a obsessão pelas armas de fogo que define seu protagonista – como fica claro por uma cena na cozinha, envolvendo uma brincadeira doméstica de Kyle com a mulher, e até seu próprio fim, nas mãos de um ex-veterano do Iraque perturbado por estresse pós-traumático, Eddie Ray Routh, que está para ser julgado.

É inegável que o filme desperta o furor patriótico de um grande número de espectadores norte-americanos, bem mais do que uma reflexão racional sobre os traumas inflingidos pela guerra aos seus soldados e a alienação social de que muitos são vítimas depois da volta para casa. Temas como esse, dos veteranos, tanto como do que é legítimo em termos de guerra do terror e da liberdade de porte de armas, mobilizam profundamente os EUA. Fora do país, pode-se esperar reações diferentes.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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