ESTREIA–Premiado “A História da Eternidade” traz conflito no sertão nordestino

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015 15:03 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Existe uma tensão entre a modernidade e a tradição – talvez a palavra mais precisa seja arcaico – que permeia toda a narrativa de “A História da Eternidade”, primeiro longa-metragem do pernambucano Camilo Cavalcante, também responsável pelo roteiro.

Num pequeno vilarejo, no sertão do Nordeste, três histórias materializam esse combate. Os pontos em comum entre elas são o desejo e a decepção. É um lugar mítico, com figuras emblemáticas, como uma matriarca forte (Zezita Matos), uma espécie de avó coragem, que abriga em sua casa o neto que voltou do sudeste (Maxwell Nascimento).

A outra é Alfonsina (Débora Ingrid), garota que sonha com o mar e cujos delírios rendem alguns dos melhores momentos do filme. Seu único amigo é o tio João (Irandhir Santos), que tenta protegê-la de um pai abusivo (Claudio Jaborandy). O filme é organizado pelas histórias de suas personagens femininas, e a terceira é Querência (Marcélia Cartaxo), cujo filho pequeno é enterrado na cena inicial, e que agora precisa lidar com a perda.

A região mais industrializada, a arte e o mar são os elementos estranhos ao lugar que geram um certo desconforto entre os personagens. A avó, Dona Das Dores, estranha os novos costumes do neto, e logo se depara com revistas pornográficas entre suas coisas.

Em duas dessas histórias, a arte é a salvação, ou, ao menos, a tentativa. O cego Aderaldo (Leonardo França) tenta, com seu acordeão, ajudar Querência a sair do luto, enquanto os laços entre Alfonsina e João se estreitam cada vez mais.

“A História da Eternidade” é um filme construído em seu tempo e espaço próprios. Cavalcante, experiente diretor de curtas, encontra na forma meditada a materialização estética das emoções e experiências de seus personagens. A câmera se mantém fixa até certo ponto, numa bela cena envolvendo “Fala”, canção da banda Secos & Molhados – a partir daí, a câmera e a imagem voam. São opções arriscadas mas muito bem pensadas e eficientes para compor uma obra que exala poesia sem nunca deixar de fazer um comentário sobre uma paisagem que, mesmo árida, está inserida no mundo globalizado.

A “eternidade” do título talvez se refira exatamente a essa disputa entre o avanço que tenta chegar tirando tudo do caminho, e o arcaico, cujas raízes fixas impedem o progresso. Ao mesmo tempo, também é sobre homens e mulheres, os anseios, medos e desejos que os movem.

“A História da Eternidade” foi um dos últimos filmes da competição do Festival de Paulínia do ano passado, e logo de cara arrebatou a todos – sendo, aliás, aplaudido em cena aberta, num dos momentos mais bonitos do longa. Arrebatou tanto que levou os cinco principais prêmios: filme, diretor (Camilo Cavalcante), ator (Irandhir Santos), atriz (dividido entre Marcélia Cartaxo, Zezita Matos e Débora Ingrid) e o prêmio da Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Abraccine. O longa também levou o prêmio de público, na Mostra de São Paulo do ano passado, entre outros.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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