March 18, 2015 / 7:29 PM / 2 years ago

ESTREIA-Protagonista convive com culpa e vingança na sequência de "Insurgente"

7 Min, DE LEITURA

Atores de "Insurgente" Shailene Woodley e Theo James em lançamento do filme em Londres. 11/03/2015.Paul Hackett

SÃO PAULO (Reuters) - Quando se fala em sagas cinematográficas baseadas em séries de livros juvenis, geralmente as novas produções deste recente subgênero são comparadas apenas aos sucessos comerciais e, às vezes, de crítica: a precursora e clássica “Harry Potter” (2001-2011), a divisora de águas “Crepúsculo” (2008-2012) e aquela que elevou o patamar nessa área, “Jogos Vorazes” (2012-2015).

Entretanto, devia-se lembrar também daquelas franquias cambaleantes, a exemplo de “As Crônicas de Nárnia” (2005-2010) e “Percy Jackson” (2010-2013), ou que nem passaram do primeiro longa, como “A Bússola de Ouro” (2007) e “Instrumentos Mortais” (2013).

Por isso, já é um grande feito o lançamento de “A Série Divergente: Insurgente” (2015), sequência justificada pelos 288 milhões de dólares da bilheteria mundial conquistada pelo primeiro filme. Contudo, a pressa imposta em sua produção, que estreia um ano depois de “Divergente” (2014), a troca de diretores – sai Neil Burger, entra Robert Schwentke – e a certeza de que dois novos longas serão realizados para adaptar “Convergente”, o último livro da trilogia escrita por Veronica Roth, não ajudaram neste caso.

Apesar de algumas evoluções, o saldo final da continuação fica abaixo de seu antecessor e exemplo disso é que, embora tenha menor duração, este é mais cansativo que o outro.

“Insurgente” começa pouco tempo depois dos acontecimentos da história anterior, que terminava com Beatrice Prior, a Tris (Shailene Woodley), fugindo do massacre ocorrido na Abnegação, junto do seu ex-instrutor e namorado Quatro (Theo James), o pai dele Marcus (Ray Stevenson), seu irmão Caleb (Ansel Elgort) e o ambíguo colega Peter (Miles Teller).

A nova produção logo lança breves esclarecimentos para iniciados na série, a exemplo da locução oficial do governo explicando que Chicago, em um futuro não definido, foi dividida em cinco facções, conforme as aptidões de cada um, a fim de assegurar a paz. Diálogos esclarecem que Beatrice cresceu junto da família na Abnegação, lar dos altruístas, mas no momento de escolher para onde iria, descobriu que era uma divergente, ou seja, tinha talento para pertencer a várias facções. Mas como a sua condição era condenada pelas autoridades, ela acaba indo para a Audácia, reduto dos valentes.

Nisso, o filme introdutório de Burger era mais um drama adolescente inserido na estrutura de uma ficção científica do que uma distopia. O foco estava na busca e expansão de sua própria individualidade, algo comum nesta faixa etária, com a descoberta de seu lugar no mundo, desenvolvimento de suas habilidades, dentro de uma ideia de não-categorização delas e de si mesmo. A chegada de Tris à sede da Audácia parece a de um(a) jovem chegando na faculdade, apesar do lugar se assemelhar mais a um campo de treinamento militar, familiarizando-se com as atividades, os colegas e o amor, no caso de Tobias “Quatro” Eaton.

Schwentke, que possui uma filmografia irregular – altos, como “Plano de Vôo” (2005) e “Red: Aposentados e Perigosos” (2010), e baixos, a exemplo de “R.I.P.D. – Agentes do Além” (2013) –, tem o mérito de conseguir ambientar melhor essa Chicago futurista e distópica, apresentando as facções relegadas no longa anterior e um pouco da tensão local.

Fugitivos do governo, Tris e os seus se refugiam na morada da Amizade, espécie de centro hippie guiado por Johanna (Octavia Spencer). Depois encontram os sem-facção e, ao mostrar o esconderijo subterrâneo deles, revela-se que a sua líder é Evelyn (Naomi Watts), a mãe de Tobias que planeja uma revolução para derrubar o governo da déspota Jeanine Matthews (Kate Winslet), chefe da Erudição, o grupo dos inteligentes. Querendo se vingar dela, a protagonista também vai com o parceiro para a Franqueza, onde os honestos, comandados por Jack Kang (Daniel Dae Kim), abrigaram seus amigos dissidentes da Audácia.

Mesmo assim, o filme ainda fica muito aquém nesta contextualização. O visual clean ainda presente na direção de arte de Alec Hammond é só o aspecto superficial de um problema que tem suas raízes no roteiro de Brian Duffield, Akiva Goldsman e Mark Bomback e na direção. O drama pessoal da protagonista não alcança a representação universal, nem a crítica que se deseja fazer aos governos autoritários e a estratificação das classes sociais. Neste ponto, é inevitável a comparação, seja por semelhanças ou proximidade temporal, com “Jogos Vorazes”, eficiente tanto como entretenimento quanto na análise da sociedade contemporânea, nos âmbitos político, social e, especialmente, midiático.

A sequência também falha no desenvolvimento dos personagens, uma omissão do roteiro que prejudica o trabalho do elenco. A excelente Shailene Woodley não consegue salvar o filme, como acontece no primeiro, pois a aflição de sua protagonista não atinge o público. Angustiada pela culpa da morte de seus pais (Ashley Judd e Tony Goldwin, em flashbacks, sonhos e simulações) e por ter matado seu amigo no episódio anterior, há de se perguntar por que, em seu conflito moral, ela só se preocupa com estes três casos e não com os outros que ela eliminou nesta trajetória?

O Quatro de Theo James ainda permanece como o protagonista e interesse romântico mais adulto do subgênero, mas não apresenta a curva dramática de antes; até quando sua questão materna é revelada, tudo é tratado superficialmente. Aliás, Naomi Watts é desperdiçada, tal qual a ganhadora do Oscar Octavia e o jovem Elgort, embora o final dê a entender que a personagem de Naomi será um dos destaques das próximas continuações. Assim, apesar de sua ambiguidade, o Peter de Miles Teller é o personagem mais interessante e coerente em sua busca por autopreservação.

Em relação a outros aspectos técnicos, constata-se que o 3D é um mero enfeite e só se faz notar em breves momentos na sequência final. Quanto à trilha sonora, a composição incidental de Joseph Trapanese é recorrente, já que a seleção musical, com M83, Haim, Imagine Dragons, etc., só é apresentada na última cena e nos créditos finais, diferentemente do anterior.

Se o primeiro filme deixava a narrativa em aberto, este consegue dar um fim a sua trama episódica, sem encerrar a história da série, até porque existe a reviravolta final. A grande dúvida é saber se a série ainda vai ter fôlego para mais dois filmes adaptados de um único livro, o que virou tradição nas franquias que chegam até o fim neste subgênero.

(Por Nayara Reynaud, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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