ESTREIA–Em “Vício Inerente”, fracasso das utopias dos anos 1960 molda o presente

quarta-feira, 25 de março de 2015 16:26 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - É preciso um cineasta com uma boa dose de coragem e ambição e outro tanto de autoconfiança para levar uma obra do escritor norte-americano Thomas Pynchon, cuja carreira literária conta com mais de meio século e oito romances, para o cinema.

Paul Thomas Anderson, cuja filmografia mostra coragem, ambição e autoconfiança suficientes para lidar com o “inadaptável”, resolveu se arriscar na primeira adaptação de uma obra do escritor, mas para isso espertamente escolheu um livro “menor”, “Vicio Inerente”, de 2009, um neonoir psicodélico e lisérgico, uma espécie de Raymond Chandler com ressaca dos anos 1960.

O filme, ao mesmo tempo fiel e subversivo em relação à obra original, é uma comédia, ainda que bastante melancólica que, a partir do século 21 olha para o fracasso dos ideais e utopias dos anos 1960.

Situada no começo da década seguinte – e isso tem muito a dizer –, a trama é protagonizada por hippies cuja data de validade está vencida, no momento em que o movimento deixou de ser legal (não no sentido de “fora da lei”), e se torna injustamente esvaziado e motivo de piada.

Larry "Doc" Sportello, um detetive particular e protagonista, só é mais um tipo estranho na galeria de tipos estranhos do ator Joaquin Phoenix, aí também incluindo-se o fanático religioso desprovido de juízo do filme anterior de Anderson, “O Mestre”.

A trama é complexa e intrincada, herança do romance, mas talvez não tenha tanta importância em si, o que importa mais é como o cineasta articula personagens e situações.

Começa com Doc sendo procurado por Shasta (Katherine Waterston), ex-namorada que confessa estar sendo pressionada pela esposa (Serena Scott Thomas) de seu amante Michael Wolfmann (Eric Roberts) para participar de um plano para dar um fim no sujeito e apoderar-se de sua fortuna. A jovem, no entanto, acaba desaparecendo.

Doc também é contratado por Hope Harlingen (Jena Malone), ex-viciada, agora conselheira de jovens drogados, que o procura para encontrar seu marido desaparecido, Coy Harlingen (Owen Wilson). Trata-se de um ex-comunista que se tornou informante do Programa de Contrainteligência – cujo objetivo, entre outros, era desmoralizar os grupos de esquerda.

O que une os dois casos é uma corporação chamada “Caninos de Ouro”, que, sob o disfarce de uma associação de dentistas, trafica drogas, além de manter uma espécie de sanatório, onde pessoas com problemas são “curadas” – como por exemplo, o ator Burke Stodger (Jack Kelly), ex-comunista que se torna um reacionário orgulhoso.   Continuação...

 
Produtora JoAnne Sellar (centro) segura o prêmio Robert Altman ao lado dos membros do elenco do filme "Vício Inerente" em Santa Monica. 21/02/2015 REUTERS/Danny Moloshok