ESTREIA-Casal tenta superar distância física e cultural entre RJ e SP no romance “Ponte Aérea”

quarta-feira, 25 de março de 2015 16:29 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Quatrocentos quilômetros separam as duas maiores cidades do país, distância que pode ser percorrida de carro em quase seis horas, ou de avião em 35 minutos na Ponte Aérea Rio-São Paulo, a terceira mais movimentada do mundo. A princípio, tentar superar este intervalo, não só espacial, é o principal objetivo do casal de protagonistas do romance “Ponte Aérea” (2015).

Dirigido por Júlia Rezende, o longa começa justamente com um voo do Rio de Janeiro para São Paulo, em que, por questões meteorológicas, o avião é obrigado a pousar em Confins, Minas Gerais. Os passageiros são obrigados a se hospedar no hotel do aeroporto durante a noite, até seguirem para o seu destino. É assim que a paulistana Amanda (Letícia Colin) e o carioca Bruno (Caio Blat) se conhecem e logo transam. Na realidade, conhecer mesmo um ao outro, os dois só o fazem chegando à capital paulista, quando o rapaz procura a garota na agência em que ela trabalha.

Desse modo, junto com eles, o público também é apresentado melhor ao casal. Amanda é uma publicitária workaholic e super-ligada às redes sociais, cuja rotina se torna mais frenética com a promoção que acaba de receber, já que ela sente a necessidade de provar sua competência para o novo cargo. Bruno é o cara tranquilão, que arranja uma grana alugando um quarto da casa que divide com o amigo (Silvio Guindane) e tem na sua arte – ele mistura grafite com artes plásticas – apenas um hobby.

Assim, ele é confrontado com uma nova realidade quando, ao visitar seu pai internado em São Paulo, conhece o seu meio-irmão mais novo Edu (Nicolas Cruz). Como se vê claramente, cada um é uma metáfora de sua cidade natal.

O início do relacionamento dos dois parece narrativamente fraco, mas, de certo modo, reflete a rapidez e superficialidade das relações contemporâneas – os pensamentos do filósofo polonês Zigmunt Bauman serviram de inspiração, segundo a cineasta. No entanto, somente quando eles passam a se envolver de fato, a trama se desenvolve e torna-se mais atraente ao público.

O roteiro escrito pela diretora, com L.G. Bayão e Rafael Pitanguy, parece progredir mais neste sentido no momento em que o conflito da distância física se dissolve e aumenta a tensão da diferença dos modos e objetivos de vida de cada uma das partes do casal, em uma atuação correta da dupla Colin e Blat. Mas o script se perde na maneira como constrói – ou desconstrói, especialmente no caso de Bruno – os personagens e conduz a história em seu último ato.

Apesar de usar a estrutura de uma comédia romântica, Júlia Rezende – cuja estreia na direção foi o sucesso comercial “Meu Passado Me Condena: O Filme” (2013) – aposta mais no romance e navega até pelo drama, utilizando a comédia em poucos momentos; mais naqueles que brincam com as diferenças entre Rio e São Paulo, como no da pizza de calabresa. Mas, se os estereótipos regionais são usados, também há de se destacar o esforço em ultrapassar essas visões limitantes opondo uma cidade sempre alegre e outra sempre cinza. Algo visto também na fotografia, que vai além dos cartões postais, para tentar captar o clima, em seu sentido mais íntimo, de cada local.

Há na produção uma clara iniciativa de atingir o público jovem, desde o texto, passando pela composição dos personagens e até a trilha sonora mesclando músicas nacionais e internacionais, a exemplo das canções de Thiago Pethit e Kaiser Chiefs. Tudo nos moldes de produções independentes ou de estilo indie.

“Ponte Aérea” é um filme leve e de fácil degustação, mas, se consegue ser ilustrativo em um aspecto da juventude atual – no caso, a fragilidade de seus relacionamentos –, deixa escapar a oportunidade de um retrato mais abrangente na oposição figurada pelos protagonistas, em que a projeção de uma carreira perfeita e a falta de ambição profissional facilmente se mostrariam como algumas das razões de frustração entre os jovens.

(Por Nayara Reynaud, do Cineweb)

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