ESTREIA-Drama "O Ano Mais Violento" critica ideologia do sonho americano

quarta-feira, 1 de abril de 2015 16:40 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Em seu terceiro longa, "O Ano Mais Violento", J. C. Chandor confirma-se como um dos nomes mais empolgantes de sua geração. Sua obra começou com "Margin Call - O Dia Antes do Fim" (2011), que investigava a crise econômica de 2008 pelo ponto de vista da exploração do capital financeiro.

Em seu segundo longa, “Até o Fim” (2013), trazia apenas Robert Redford no elenco, que, por quase duas horas, ficava à deriva num oceano inóspito tentando sobreviver - uma crítica ao excepcionalismo americano e à crença no individualismo exacerbado dessa sociedade.

Em seu novo trabalho, o cineasta cristaliza e depura seus temas: o sonho americano como uma ideologia mentirosa que cobra muito e oferece pouco. O ano mais violento do título é 1981. O palco é uma gélida Nova York, onde os caminhões de combustível da empresa de Abel Morales (um contundente Oscar Isaac) estão sendo roubados, o que faz motoristas insistirem em carregar armas ilegais.

Para piorar, seus negócios estão sob investigação da promotoria pública – sob o comando do personagem de David Oyelowo. A mulher de Abel, Anna (uma Jessica Chastain gélida e interesseira), é quem faz a contabilidade dos negócios, e ela não tem boas notícias para o marido.

Uma Lady Macbeth de um neoliberalismo que começa a se delinear na sociedade americana, Anna é quem impulsiona o marido, é quem o seduz, não no sentido amoroso, mas no do poder e da riqueza. Filha de um gângster do qual Abel herdou a empresa de distribuição de petróleo, ela é incapaz de compreender os métodos do marido, cuja ética, às vezes deturpada, é seguida à risca. Como toda nova-rica que se preze, Anna mede sua riqueza pela ostentação e acumulação.

Chandor, que também assina o roteiro, constrói sua narrativa pelas lacunas, pelas fissuras que são mais reveladoras que muitos diálogos, que funcionam como uma espécie de véu destinado a desviar a atenção – tal como um empresário inescrupuloso e dissimulado.

Não se recorre a explicações, flashbacks ou outros elementos facilitadores. Ao diretor interessa o tempo presente, e é pelas ações de seus personagens que se pode compreender seus passados e atitudes. Não há nenhuma cena em tom apologético explicando a (possivelmente) dura jornada de Abel da transição de imigrante a rico empresário. Desconfia-se disso quando ele visita a casa de um de seus funcionários, que está foragido, e é seu amigo desde a juventude.

Abel é uma espécie de Grande Gatsby imigrante dos anos de 1980, que precisa reinventar sua identidade a fim de se inserir na alta sociedade. Aqui, o mediador é o petróleo, o que também remete ao filme “Sangue Negro”, de Paul Thomas Anderson, de 2007 – mas enquanto seu personagem central, Daniel Plainview (trabalho que rendeu um Oscar a Daniel Day-Lewis), era um típico americano cuja ascensão fortalece sua sociedade, aqui o protagonista não é americano, mas um imigrante, que precisa se “americanizar”, afinal, o capital não pode mudar de mãos.

A fotografia assinada por Bradford Young (“Selma”, “Amor Fora da Lei”) ressalta os dois extremos: o branco da neve com o preto do petróleo, evidenciando os bem mais de 50 tons de honestidade e moral que existem entre as duas pontas. O sobrenome “Morales” não parece escolhido ao acaso, e o protagonista centraliza em si a discussão de até onde se deve ir em nome da aceitação.   Continuação...

 
Ator Oscar Isaac participa da pré-estreia mundial do filme "O Ano Mais Violento", em Los Angeles, no ano passado. 06/11/2014 REUTERS/Phil McCarten