ESTREIA-Mesmo bem-humorada, inteligência artificial de “Chappie” é reciclada

quarta-feira, 15 de abril de 2015 16:31 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - O diretor sul-africano Neill Blomkamp, conhecido por suas ficções científicas distópicas como “Distrito 9” (2009) e “Elysium” (2013), traz em “Chappie” um dos temas mais recorrentes do gênero: a consciência sintética e a consequente relação humano-máquina.

Um caminho no mínimo ambicioso tendo como imaginário cinematográfico o computador Hall 9000 (personagem do clássico “2001 – Uma Odisseia no Espaço”), o contagiante “Wall-E”, o violento “Robocop” (e sua maniqueísta refilmagem de 2014), a fábula “Inteligência Artificial” e, claro, o dramático “Ela”, calcado na expressão do afeto.

Mesmo com a infinidade de referências de que dispunha para idealizar seu projeto, Blomkamp mostra que apenas reciclou seus filmes anteriores, incluindo no rol seus curtas robóticos “Adicolor Yellow” e “Tempbot” (ambos de 2006). Não se trata de ser fiel a um estilo, pois este evolui, mesmo que sutilmente, com a maturidade.

Pelo roteiro (escrito com a ajuda de sua sempre presente colaboradora e esposa Terri Tatchell), a África do Sul passa por um período muito violento e a força policial é substituída por androides. Aqui, o diretor mais uma vez usa reportagens de TV como artifício para explicar o contexto ao espectador.

Os robôs foram criados por Deon (Dev Patel) e o programa é um sucesso, para sorte da empresa fabricante Tetra Vaal, liderada pela CEO Bradley (Sigourney Weaver). Mas outro funcionário, invejoso e rival, Vincent (Hugh Jackman), desenvolve uma máquina mais letal, similar às usadas pelos vilões de “Robocop”.

Indiferente a isso, Deon quer mais para seus androides do que prender bandidos e, assim, desenvolve um programa para fazê-los pensar por si mesmos. Eles, no entanto, devem obedecer às recorrentes leis robóticas criadas pelo escritor de ficção científica Isaac Asimov (1920-1992), sobre não atentar contra humanos, utilizadas em produções como “Eu, Robô” e “O Homem Bicentenário”.

Ao incorporar seu projeto em um dos robôs, Deon e máquina são sequestrados pelo casal de bandidos Ninja e Yolandi (uma caricatura dos próprios cantores de rap-rave Die Antoord “Ninja” e Yolandi Visser). Os presumíveis vilões querem transformar o androide em uma máquina de matar/roubar, mas a compassividade de Yolandi e os apelos do criador o transformam em Chappie (dublado pelo ator Sharlto Copley, assíduo nos filmes de Blomkamp).

O resultado é bem-humorado, pois Chappie se transforma em uma espécie de rapper gentil, mas potencialmente mortal – algo como um robô em curto-circuito ao estilo gangsta rap. Mas o drama ganha mais destaque quando a Tetra Vaal envia a máquina de Vincent para destruir a família feliz.

Unidimensional no que diz respeito a seus papeis, o elenco precisa se apoiar na presença do robô, que não chega a ser contagiante. Mesmo a verve politizada de Blomkamp, que aqui injeta uma discussão sobre segurança pública e segregação, não atinge a costura bem amarrada de seus longas anteriores. Nem mesmo na relação humano-máquina, mais convincente em seus curtas.

(Por Rodrigo Zavala, do Cineweb)

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