ESTREIA-Shailene Woodley é adolescente perturbada em “Pássaro Branco na Nevasca”

quarta-feira, 22 de abril de 2015 16:15 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Gregg Araki – um dos poucos cineastas que ainda se mantêm fieis ao seu espírito de cinema indie, sem se render a modismos passageiros – é capaz de retratar a alienação juvenil como ninguém. Seus “Geração Maldita” e “Mistérios da Carne” são os melhores exemplares do gênero, mas seu mais recente trabalho, “Pássaro Branco na Nevasca”, também pode ser acrescentado ao conjunto.

O filme é protagonizado por Shailene Woodley, que, finalmente mostra suas habilidades dramáticas, longe das lágrimas obrigatórias de “A Culpa É das Estrelas” e da correria distópica e soporífera da série “Divergente”.

Shailene é Kat Connors, adolescente que tem um relacionamento tenso com sua mãe dominadora e cada vez mais desequilibrada emocionalmente, Eve (Eva Green), que nunca se contentou com o papel de mãe suburbana. Ela também desconta na filha seu casamento infeliz com Brock (Christopher Meloni).

As duas podiam ser grandes amigas, mas seus encontros são pautados por disputas e rancor. Quando a mãe desaparece sem deixar vestígios, a menina só pode contar com o pai para tentar superar a perda e todas as suas inseguranças.

Embora possam ser apontados alguns suspeitos, e não se possa descartar a chance de a mulher ter sumido por conta própria, há um quê de paranormalidade, algo comum nos filmes do diretor, para explicar o sumiço de Eve. Kat começa a ter sonhos com a mãe, num ambiente todo branco e coberto de neve.

Cada vez mais insegura, a garota envolve-se com um namoradinho brucutu, Phil (Shiloh Fernandez), com quem acaba se decepcionando. Kat precisa mesmo é livrar-se de seu passado, superar a adolescência e entrar na vida adulta de cabeça erguida. Para isso, sente que precisa “matar” internamente a figura da mãe, seduzindo um sujeito que represente a figura paterna, e, no caso, é o investigador Scieziesciez (Thomas Jane).

Isso, no entanto, não é o suficiente. Se fisicamente ela já é uma mulher, emocional e psicologicamente há uma série de fraturas que precisam ser superadas para que ela entre de verdade na próxima fase de sua vida. Araki trabalha isso ao longo do filme, adaptado de um romance de Laura Kasischke. Todas as respostas estão, como se verá no final, debaixo do nariz de Kat, mas ela precisa primeiro aceitá-las.

Nos filmes do diretor, o elemento fantástico, na verdade, pode ser apenas um véu que cobre uma realidade que as personagens não querem enxergar – embora estejam perfeitamente cientes do que realmente está acontecendo. Seja o garoto “abduzido” em “Mistérios da Carne”, ou o desaparecimento da mãe aqui.

O diretor constrói uma atmosfera que, de certo modo, remete aos “dramas femininos” da década de 1950, com um quê de Douglas Sirk, mas, claro, é preciso a virada contemporânea para trazer o filme para o presente – e essa apoia-se nos dramas das personagens ou no elemento de suspense. Este, aliás, por mais que seja trabalhado, em sua resolução, na reta final, um tanto apressada e óbvia.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

 
Shailene Woodley chega para MTV Movie Awards em Los Angeles. 12/04/2015. REUTERS/Phil McCarten