ESTREIA–Vencedor sueco do Leão de Ouro de 2014 combina humor corrosivo e reflexão social

quarta-feira, 13 de maio de 2015 15:19 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Desde o imenso título, em “Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência” não se pode reclamar de rotina, nem obviedade. O diretor sueco Roy Andersson venceu o Leão de Ouro em Veneza, em 2014, com esta obra plural, que constrói sua singularidade com uma mistura sutil de humor, ternura e também reflexão social e histórica.

O filme fechou a trilogia formada por “Histórias do Segundo Andar” (2000) e “Vocês, os Vivos” (2007) com mais uma série de pequenas histórias intercaladas, envolvendo temas duros como a morte e o subemprego, tendo como dois protagonistas Sam (Nils Westblom) e Jonathan (Holger Andersson), dois melancolicamente hilários vendedores de "artigos para fazer rir", como sacos de risadas, máscaras e dentes de vampiro.

Em vários segmentos, outros personagens vivem situações que permitem ao diretor tecer comentários histórico-políticos, envolvendo guerras, colonialismo, genocídio e escravidão.

A maneira como Andersson é capaz de compor cada um destes quadros e articulá-los é muito eficiente e particular, inclusive em termos estéticos, com um descoramento de cores de cenários, figurinos e personagens - o rosto de todos é pintado de branco, o que lhes dá um ar de clowns.

É um universo que se assemelha às vezes ao do finlandês Aki Kaurismaki, mas tem o seu próprio tom. O diretor sueco alinhava histórias, fragmentos, personagens, extraindo da alma deles uma estranha poesia, um humor peculiar e um sentido muito particular e crítico da História, e não só da Suécia.

O “pombo no galho” é visto logo de início, no primeiro esquete, dentro de uma vitrina de uma espécie de museu de História Natural, observado por alguns atentos visitantes. Tão imóvel quanto este pombo empalhado é a câmera no filme, que se movimenta muito pouco, milimetricamente, evocando o imobilismo das vidas que passa a comentar.

Muda-se de época com grande liberdade. Num dos segmentos mais divertidos, os clientes de um bar relembram um cliente fiel, frequentador há mais de 60 anos. Ato contínuo, um flashback volta a 1943, retratando como era este bar em plena 2º Guerra, cheio de brincadeiras e muita música. Nem a garçonete se esquiva de mostrar seus dons musicais.

Um outro bar de subúrbio entra como cena numa transposição ainda mais livre de épocas, quando seus clientes – aparentemente nos dias atuais – vêem passar na rua as tropas do rei sueco Carlos 2º (Viktor Gyllenberg), devidamente paramentadas como no século 17. Alguns soldados chegam a entrar no bar, montados a cavalo e tudo. Pouco depois, os mesmos soldados passam derrotados (a batalha em questão é a de Poltava, em 1709), seguidos pelo choro estridente das viúvas.

Os personagens são vários, cada um carregando o germe de um equívoco: um militar à procura de uma palestra, que sempre confunde suas datas; uma professora de flamenco (Lotti Tömros) atraída por um aluno mais jovem; um homem que não consegue tirar a rolha de uma garrafa de vinho e provoca uma tragédia; uma velha senhora nas últimas num hospital, agarrada com suas últimas forças a uma bolsa que os filhos tentam arrancar de suas mãos (outro momento de humor negro).   Continuação...

 
Diretor sueco Roy Andersson recebe prêmio em Veneza. 6/9/2014 REUTERS/Tony Gentile