ESTREIA–“A Gangue”, “falado” em linguagem de sinais, traz trama de sexo e violência

quarta-feira, 13 de maio de 2015 15:27 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - O ucraniano “A Gangue” tem uma peculiaridade: é inteiramente falado em linguagem de sinais e protagonizado por atores surdo-mudos. A temática da gangue juvenil já é bem saturada pelo cinema e, no fundo, representa os ritos de passagem para a vida adulta. Sem qualquer legenda ou diálogo verbalizado, a narrativa se constrói da fala silenciosa de suas personagens e do som ambiente.

Isso, é claro, causa, num primeiro momento, desconforto no público, que intuitivamente acompanha o desenrolar da trama. Depois, o longa, escrito e dirigido por Miroslav Slaboshpitsky, traz outros tipos bem maiores de desconforto – em seu sexo explícito e na violência, deixando a falta de falas em segundo plano.

Sergey (Grigory Fesenko) chega a um internato para surdos, um lugar como outro internato que tanto se vê no cinema: disciplina rígida, uniformes e uma tensão e disputa entre personagens. Mas o jovem quer se encaixar, fazer parte do grupo, por assim dizer. Se comportam conforme mandam as regras da instituição durante o dia, mas à noite se transformam, liderados por um deles (Alexander Osadchiy); roubam dinheiro e bebidas.

Quando finalmente é aceito, Sergey começa sua escalada rumo ao topo da gangue. Primeiro junta dinheiro para passar a noite com uma das garotas da escola, Anya (Yana Novikova) – e os dois se tornam amantes, o que resulta em algumas das cenas gráficas do longa. A garota e sua amiga Svetka (Rosa Babiy) querem imigrar para a Itália, mas o sonho é interrompido por uma gravidez inesperada – no que resultará em outro dos “momentos fortes” do filme.

Ganhador de três prêmios no Festival de Cannes do ano passado – entre eles o principal da competição paralela Semana da crítica –, Slaboshpitsky não tem pudores em mostrar a violência – especialmente perto do final – como a única saída para suas personagens. É o refúgio deles, é uma espécie de última forma de expressão que encontraram. É cruel, mas, ao mesmo tempo, faz um certo sentido: mas seria a única forma que eles têm para “gritar”? É claro que não.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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