ESTREIA–Apocalipse de novo “Mad Max” é representação de nossos tempos

quarta-feira, 13 de maio de 2015 15:47 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Representações do apocalipse são, ao seu modo, construções históricas. O que era o fim do mundo para o primeiro filme da série “Mad Max”, de 1979, não era exatamente o mesmo nas suas sequências, dos anos 1980.

E o novo filme “Mad Max: Estrada da Fúria”, irá responder exatamente aos anseios e aflições de nosso tempo – e, nesse sentido, faz tão bem como nenhum outro.

Depois de exatos 30 anos, o cineasta George Miller retoma o personagem e a premissa para criar um filme completamente novo, que não é nem refilmagem, nem continuação, apenas uma nova visão de um mesmo mundo em colapso.

Primeiramente, não se explica o que aconteceu – até porque não há o que explicar, não aconteceu nada, a crise é estrutural de nosso modo de vida. Encontramos Max (agora interpretado por Tom Hardy) numa terra desolada, seca, castigada pelo sol.

Um lobo solitário, ele acaba aprisionado pelo governador desse mundo, Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), sujeito deformado e coberto de um pó branco, cuja metade do rosto é escondida por uma máscara assustadora. Quem é essa figura? Ele nos é apresentado como uma espécie de Rei da Privataria – domina a água e a disponibiliza para uma turba miserável conforme seus interesses.

Dessa forma, é irresistível ler “Mad Max” como uma representação de uma sociedade neoliberal, e cada personagem vai se encaixando perfeitamente com as figuras desse tabuleiro. Nux (Nicholas Hoult) faz parte do exército de Immortan Joe, é um uma espécie de religioso fanático, cujo lema “Viver, morrer! Viver novamente!” traduz ao mesmo tempo um ideal terrorista e uma ingenuidade de quem acredita na meritocracia.

Se Max luta pela sua sobrevivência apenas, seu arco de transformação será precipitado por Imperatriz Furiosa (Charlize Theron), o espírito revolucionário desse mundo.

Careca, e sem um braço –substituído por outro mecânico– ela é mais uma do exército de Joe, mas que irá se rebelar, ao roubar o “capital” dele – especificamente, um grupo de moças jovens e belas que servem apenas para gestar seus filhos. É nessa fuga que o caminho dela e Max se cruzam.

Furiosa é uma utópica, por assim dizer, nesse mundo condenado à sobrevivência individual; quer reencontrar sua tribo formada apenas por mulheres que vive num lugar que atende pelo nome bucólico de Vale Verde – é realmente uma bela imagem pensar num oásis de água e plantas em meio ao deserto seco.   Continuação...

 
Atriz Charlize Theron na pré-estreia de "Mad Max: Estrada da Fúria" em Hollywood. 15/05/2015 REUTERS/Mario Anzuoni