ESTREIA–Sem Lilia Cabral, “Divã a 2” perde o que tinha de charme e originalidade

quarta-feira, 13 de maio de 2015 15:55 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - “Divã a 2” não é uma sequência do sucesso “Divã”, embora use a mesma identidade visual no cartaz do filme. O novo longa poderia ter qualquer outro título inócuo de comédias românticas – porque é tão anódino quanto qualquer exemplar sem graça do gênero. É o tipo de filme em que já se vislumbra a resolução antes dos créditos finais – nem o talento de Vanessa Giácomo disfarça os clichês.

O longa começa com a ortopedista Eduarda (Vanessa) e seu ex-marido, Marcos (Rafael Infante, do humorístico “Porta dos Fundos”), fazendo terapia separadamente, e tentando entender por que o casamento acabou. Enquanto contam a seus terapeutas o que aconteceu, o público recapitula a história deles. Como se precisasse de algo assim.

Separados, cada um tenta tocar suas vidas, que são pautadas pelos desenvolvimentos mais óbvios que personagens possam ter. Ele cai na gandaia em companhia de amigos, conhece novas mulheres – uma delas, inclusive, é desculpa para uma cena completamente desnecessária, e sem graças, envolvendo um par de lentes de contato.

Eduarda, por sua vez, passa a se dedicar mais ao trabalho e ao filho – mas não tanto assim, afinal ainda lhe sobra tempo, entre colocar pinos numa perna e engessar um braço, para ficar bons minutos massageando seus longos cabelos com o xampu e creme de uma marca que faz merchandising no filme. Mais tarde conhece um psicanalista, Leo (Marcelo Serrado), por quem se apaixona – afinal, ele também é um clichê ambulante: bom namorado, bom pai, legal com o filho dela etc.

Existe algum personagem minimamente próximo de algo a que chamamos de ser humano em “Divã a 2”? Aparentemente, não. Marcos segue o caminho mais óbvio: começa a dar valor para a ex-mulher apenas quando a vê com outro homem.

Essa “continuação” de “Divã” deixa de fora o que havia de melhor no primeiro filme: Lília Cabral e sua personagem – uma mulher madura. Não era um grande filme, mas, ao menos, não trazia como protagonista uma mocinha tola, como aqui e na maioria dos longas semelhantes.

O filme é cruel com as personagens femininas, que inclui além da protagonista, sua melhor amiga, Isabel (Fernanda Paes Leme), a mãe de Eduarda, Cristina (Totia Meirelles), duas personagens caricatas, apenas meras “muletas” narrativas para apresentar Leo à médica, ou cuidar do filho, respectivamente. Falta uma melhor amiga, como a do filme anterior, que tenha algo de sincero.

Aqui, por mais que Eduarda trabalhe, seja independente e tudo o mais, há sempre o reforço da ideia de que será infeliz sem um homem para chamar de seu.

Dirigido por um homem, Paulo Fontenelle, e escrito por outros dois, Leandro Matos e Saulo Aride, (e apesar de contar com duas mulheres na produção, Vilma Lustosa e Walkiria Barbosa), “Divã a 2” é um filme bastante machista em sua ideia de felicidade para a protagonista – cuja vida estará apenas completa com um homem ao seu lado. Nesse sentido, falta um pouco de dignidade para o destino dessa personagem.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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