ESTREIA-Fernando de Noronha serve de cenário nas histórias de amor e desejo de “Sangue Azul”

quarta-feira, 3 de junho de 2015 16:51 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Somente em seu epílogo, através das palavras de Ruy Guerra na pele do “homem sábio” da ilha, “Sangue Azul” (2014) traz ao público a Lenda do Pecado, uma narrativa tradicional de Fernando de Noronha, que explicaria a origem de duas famosas formações rochosas do paradisíaco arquipélago: o Rochedo de Dois Irmãos e o Morro do Pico.

Quem conhece o cinema de Lírio Ferreira sabe que a geografia local é uma espécie de personagem em seus filmes, vide a caatinga de “Baile Perfumado” (1996) – sua estreia, em codireção com Paulo Caldas – e o sertão de “Árido Movie” (2006).

Por isso, mais do que metáfora final para a história central dos irmãos e apaixonados Pedro (Daniel de Oliveira) e Raquel (Caroline Abras), o mito está na gênese dessa volta do cineasta à ficção, após os documentários musicais “Cartola” (2007) e “O Homem que Engarrafava Nuvens” (2008).

Daí, o filme, que foi o primeiro rodado inteiramente em Noronha, ser uma ode ao amor: proibido ou cerceado pelo mar, ao mesmo tempo em que, ilhado neste arquipélago de origem vulcânica, fomenta ainda mais os desejos e põe as pessoas em ebulição.

E se nos títulos de seus capítulos – Insônia, Angústia e Infância –, com exceção do inicial, há uma clara citação a Graciliano Ramos, não é apenas homenagem, mas sinal da influência do autor no diretor pernambucano, que igualmente prioriza o ambiente, deixando as imagens falarem mais do que as palavras.

As referências, aliás, são múltiplas no longa, indo de Fellini, na sequência inicial com a montagem do circo Netuno em preto e branco, à gangue de motociclistas de “O Selvagem” (1953) como comparação direta ao fascínio e posterior embate dos nativos com os forasteiros circenses – e, em um âmbito maior, com o próprio cinema –, entre as mais aparentes.

Entre os artistas do picadeiro está Zolah (Daniel de Oliveira), o antigo menino Pedro, nascido naquelas terras insulares, mas dado pela mãe (Sandra Corveloni) ainda jovem para Kaleb (Paulo César Pereio), ilusionista e dono do circo, a fim de criar o garoto.

A intenção era afastá-lo da irmã, já que a proximidade dos dois a preocupava. A volta do filho, apesar de seu grande amor materno represado, faz seus temores voltarem. O Homem-Bala – símbolo fálico mais explícito não há –chega à ilha alimentando o desejo de várias moças, mas sem aplacar o seu, já que o passado ainda o atormenta, mesmo com Raquel estando noiva de seu amigo de infância (Rômulo Braga).

A turva relação dos irmãos não é escancarada, mas revelada nos olhares, meias palavras e no mergulho, de onde vem o melhor da atuação de Daniel – que também está em outra estreia da semana, “Romance Policial”, e de “A Estrada 47”, ainda em cartaz – e Caroline – que já ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival do Rio por seu trabalho em “Se Nada Mais Der Certo” (2008).   Continuação...