ESTREIA-Angelina Jolie aborda crise conjugal em drama "À Beira-Mar"

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015 17:18 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Saindo da temática de guerra que serviu de fonte aos seus dois primeiros longas, Angelina Jolie continua em um território tão minado quanto: em “À Beira-Mar” (2015), o campo de batalha é do amor, mais especificamente de um casamento em crise.

Após seu début no modesto romance dramático sobre a guerra da Bósnia em “Na Terra de Amor e Ódio” (2011) e sua experiência em uma superprodução de tom épico, “Invencível” (2014), biografia do atleta olímpico Louis Zamperini, a atriz e realizadora muda totalmente o curso, apostando em um cinema mais autoral, com forte influência dos filmes europeus dos anos 60 e 70.

É justamente em meados da década setentista que se situa a história do par fictício, interpretado pela própria diretora e seu marido Brad Pitt, reunidos em cena novamente após 10 anos do lançamento de “Sr. & Sra. Smith” (2005), quando os dois iniciaram o relacionamento mais badalado de Hollywood dos últimos tempos.

Se a apresentação dos protagonistas é feita de forma glamourosa, que remonta à época áurea das estrelas e casais da indústria cinematográfica norte-americana, o que vem em seguida é a desconstrução disso, embora a atriz nunca perca a pose, mesmo no auge da depressão de sua personagem.

A viagem de Roland (Brad Pitt) e da esposa Vanessa (Angelina Jolie) para a costa sul da França – as gravações foram realizadas, na realidade, na ilha de Gozo, em Malta – não são férias e sim uma busca de salvação para o seu casamento. Além da crise conjugal, ele ainda vê no novo cenário uma forma de buscar inspiração e pôr fim a um bloqueio criativo que o faz questionar sua carreira como escritor.

A apatia e desconexão entre ambos causam uma frieza e passividade inicial que tornam o primeiro ato mais maçante, apesar de justificável. É curioso que, no entanto, a trilha sonora de Gabriel Yared, ganhador do Oscar por “O Paciente Inglês” (1996), peque pelo exagero logo aí, destoando no começo e encontrando seu caminho complementar à narrativa somente mais à frente no longa.

De certa maneira, isso ocorre concomitantemente à introdução do voyeurismo na trama, que ganha ritmo a partir disto, pois é o gatilho para que os cônjuges finalmente comecem a expor e compartilhar suas aflições e dificuldades no relacionamento, embora as consequências disso sejam tanto positivas como negativas para os dois.

A chegada de um casal em lua de mel ao hotel, justamente no quarto ao lado, é o contraponto à situação deles, pois a jovialidade, empolgação e envolvimento de Lea (Mélanie Laurent, que trabalhou com Pitt em “Bastardos Inglórios”) e François (Melvil Poupaud, de “Laurence Anyways”) escancara um estágio a que o casamento de Roland e Vanessa parece não ter mais condições de voltar.

Em conjunto, essa gritante diferença é usada como representação de um abismo entre gerações, com o olhar daquela de que os dois principais fazem parte, ainda arraigada em valores conservadores em relação à família; para a outra, simbolizada nos recém-casados, já resultante da consolidação da revolução sexual daquelas décadas.   Continuação...

 
Angelina Jolie e seu marido Brad Pitt em Hollywood, nos Estados Unidos, em novembro. 05/11/2015 REUTERS/Mario Anzuoni