December 2, 2015 / 7:19 PM / 2 years ago

ESTREIA-Angelina Jolie aborda crise conjugal em drama "À Beira-Mar"

6 Min, DE LEITURA

Angelina Jolie e seu marido Brad Pitt em Hollywood, nos Estados Unidos, em novembro. 05/11/2015Mario Anzuoni

SÃO PAULO (Reuters) - Saindo da temática de guerra que serviu de fonte aos seus dois primeiros longas, Angelina Jolie continua em um território tão minado quanto: em “À Beira-Mar” (2015), o campo de batalha é do amor, mais especificamente de um casamento em crise.

Após seu début no modesto romance dramático sobre a guerra da Bósnia em “Na Terra de Amor e Ódio” (2011) e sua experiência em uma superprodução de tom épico, “Invencível” (2014), biografia do atleta olímpico Louis Zamperini, a atriz e realizadora muda totalmente o curso, apostando em um cinema mais autoral, com forte influência dos filmes europeus dos anos 60 e 70.

É justamente em meados da década setentista que se situa a história do par fictício, interpretado pela própria diretora e seu marido Brad Pitt, reunidos em cena novamente após 10 anos do lançamento de “Sr. & Sra. Smith” (2005), quando os dois iniciaram o relacionamento mais badalado de Hollywood dos últimos tempos.

Se a apresentação dos protagonistas é feita de forma glamourosa, que remonta à época áurea das estrelas e casais da indústria cinematográfica norte-americana, o que vem em seguida é a desconstrução disso, embora a atriz nunca perca a pose, mesmo no auge da depressão de sua personagem.

A viagem de Roland (Brad Pitt) e da esposa Vanessa (Angelina Jolie) para a costa sul da França – as gravações foram realizadas, na realidade, na ilha de Gozo, em Malta – não são férias e sim uma busca de salvação para o seu casamento. Além da crise conjugal, ele ainda vê no novo cenário uma forma de buscar inspiração e pôr fim a um bloqueio criativo que o faz questionar sua carreira como escritor.

A apatia e desconexão entre ambos causam uma frieza e passividade inicial que tornam o primeiro ato mais maçante, apesar de justificável. É curioso que, no entanto, a trilha sonora de Gabriel Yared, ganhador do Oscar por “O Paciente Inglês” (1996), peque pelo exagero logo aí, destoando no começo e encontrando seu caminho complementar à narrativa somente mais à frente no longa.

De certa maneira, isso ocorre concomitantemente à introdução do voyeurismo na trama, que ganha ritmo a partir disto, pois é o gatilho para que os cônjuges finalmente comecem a expor e compartilhar suas aflições e dificuldades no relacionamento, embora as consequências disso sejam tanto positivas como negativas para os dois.

A chegada de um casal em lua de mel ao hotel, justamente no quarto ao lado, é o contraponto à situação deles, pois a jovialidade, empolgação e envolvimento de Lea (Mélanie Laurent, que trabalhou com Pitt em “Bastardos Inglórios”) e François (Melvil Poupaud, de “Laurence Anyways”) escancara um estágio a que o casamento de Roland e Vanessa parece não ter mais condições de voltar.

Em conjunto, essa gritante diferença é usada como representação de um abismo entre gerações, com o olhar daquela de que os dois principais fazem parte, ainda arraigada em valores conservadores em relação à família; para a outra, simbolizada nos recém-casados, já resultante da consolidação da revolução sexual daquelas décadas.

Contudo, ao transformar os protagonistas também em espectadores, deste e de outros filmes, Jolie estabelece uma relação entre personagens e público quando ambos projetam e aliviam suas frustrações na felicidade que veem pelo “buraco” da tela. Um intercâmbio que seria mais intenso se a maior destreza que agora demonstra na direção se espelhasse no roteiro, o vilão neste caso.

Com uma obra centrada basicamente em duas figuras que passam, na maior parte do tempo, separadas, é louvável o domínio das elipses temporais e espaciais através do trabalho dela, da montagem de Martin Pensa e Patricia Rommel e do desenho de som de Becky Sullivan e David Stephenson. Frente à fragilidade e, às vezes, histeria de Vanessa, a perseverança de Roland na relação é, ao mesmo tempo, invejável e duvidosa.

Mas é a naturalidade que Brad consegue imprimir ao personagem um tanto incompleto que impele a plateia a dar uma nova chance ao seu par, já que o sofrimento dela é muito teatral e fotográfico.

Mais do que qualquer comparação entre os casamentos real e fictício e até a motivação explícita de tratar sobre o luto depois da perda de sua mãe, enxerga-se no trabalho de Angelina uma grande vontade de reafirmação, enquanto mulher e estrela, especialmente com a utilização de seu próprio corpo exposto.

Imageticamente, o filme é sedutor e a fotografia imersiva e vintage de Christian Berger, parceiro constante de Michael Haneke, dá uma imensa contribuição neste sentido, com o azul do mar ganhando vida entre os tons pastéis das pedras e construções, destacados pela luz natural mediterrânea.

Elo fraco do longa, o script da cineasta expõe, por vezes, subtextos em diálogos que soam artificiais e desconfiam da inteligência do público, além de perder ritmo no terceiro ato, quando toda a eficiência da tensão gerada pelo relacionamento deles se esvai com a justificativa dada ao final para tal crise.

Muitos ficarão decepcionados, considerando que muita tempestade em copo d'água é feita durante toda a história, pois o que era até então desconhecido se mantinha mais interessante e a ambiguidade seria, talvez, uma melhor solução.

Porém, quando Roland diz a Vanessa que eles precisam parar de ser tão estúpidos, há um sarcasmo, intencional ou não, que define não só o espírito da obra como ironiza a tendência humana de supervalorizar seus próprios problemas.

(Por Nayara Reynaud, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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