ESTREIA-"Em Três Atos" encena textos de Simone de Beauvoir

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015 18:59 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Diretora experimentada de obras sobre temas realistas, como a tortura (“Que Bom te Ver Viva”), a identidade indígena (“Brava Gente Brasileira”), crime e militância política (“Quase Dois Irmãos”), Lúcia Murat volta-se para o corpo e a velhice num formato mais ensaístico em “Em Três Atos”.

Contando com a participação de duas bailarinas, Maria Alice Poppe e Angel Vianna, e duas atrizes, Andréa Beltrão e Nathália Timberg, recorrendo a coreografias de João Saldanha e textos da escritora francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), a diretora usa como eixo o contraste entre intérpretes de idades diferentes, que materializam a ideia da passagem do tempo.

Os textos, no caso, provêm de dois livros da autora, “La Vieillesse” e “Une Morte Très Douce”, cujos direitos foram cedidos pela editora Gallimard, e também de entrevistas. Através deles, acompanha-se reflexões de Beauvoir sobre as “metamorfoses” de criança a adulto, as reações do corpo e da memória.

Alguns dos momentos mais envolventes são as descrições da autora sobre a morte da mãe, que lhe permite reexaminar a própria história familiar, ao mesmo tempo que acompanha o esforço da mãe para recuperar-se, afinal frustrado.

“Duro trabalho é morrer quando se ama tão fortemente a vida”, diz.

Algumas das observações mais certeiras da escritora, nas vozes alternadas de Andréa e Nathalia, referem-se à própria velhice, assunto sobre o qual “não se fala ou não se fala a verdade”, a seu ver.

Dentro da imensa racionalidade que a caracterizava, a autora encontra motivos para ser otimista, no entanto, quando destaca que os mais velhos precisam “sentir que o mundo está povoado de finalidades”. Também não esquece um olhar aos jovens, em quem enxerga uma “esperança de continuidade e de que vivam tempos melhores”.

A trilha sonora que embala as imagens mescla as populares “Estão Voltando as Flores” (Paulo Soledade) e “Não Dá Mais pra Segurar/Explode Coração” (Gonzaguinha) e instrumentais de cunho clássico, como o prelúdio da ópera “Tristão e Isolda” (Richard Wagner), “Brasilianas” (Edino Krieger) e “Ricercata” 4 e 7 (György Ligeti).

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

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