ESTREIA-Em "O Clã", Pablo Trapero usa história policial para examinar questões políticas

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015 19:09 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - A trama de “O Clã”, premiado trabalho do argentino Pablo Trapero (“Abutres”), é uma história tão absurda que só poderia real. Nenhum roteirista seria capaz de imaginar algo tão impressionante e contundente. Partindo de uma série de sequestros da década de 1980, comandados pelo patriarca da família Puccio, o cineasta faz, entre outras coisas, um retrato político de seu país – e, por que não?, da América Latina.

O ano é 1983, pouco depois do colapso da ditadura na Argentina, uma sombra que ainda paira sobre os personagens e a sociedade. A família Puccio leva uma vida de classe média sem regalias, mas também, aparentemente, sem grandes contenções.

O filho mais velho, Alex (Peter Lanzani) é uma estrela do rúgbi com um futuro promissor, mas não o suficiente para a ambição de seu pai, Arquímedes (Guillermo Francella), um homem cujo olhar é tão frio quanto sua alma, que encontra no sequestro de pessoas um negócio lucrativo.

Apesar de a ditadura ser, teoricamente, coisa do passado, Puccio pai ainda tem conexões com altos escalões militares, capazes de acobertá-lo quando precisa. As reuniões de família, geralmente no jantar, são reveladoras. Neles conhecemos os membros do clã, composto também pela matriarca Epifania (Lili Popovich), uma professora; as meninas Silvia (Giselle Motta) e Adriana (Antonia Bengoechea); Guillermo (Franco Masini), que parece o mais deslocado de todos; e o ausente Daniel (Gaston Cocchiarale), cujo apelido é Maguila e que, pelo fato de morar na Nova Zelândia e manter pouco contato com os demais, é motivo de ressentimento de Arquímedes.

Este pai é um homem à moda antiga, para quem família deve permanecer unida a qualquer preço; por isso, não hesita em envolver a todos em seus planos. Alex deve participar do sequestro de um colega do time, a primeira vítima, que é mantido na casa da própria família, sem nunca desconfiar de quem são seus captores. Numa das melhores sequências do longa, o primogênito fica sabendo, pelos colegas de time, num vestiário, que o rapaz foi morto depois de o resgate ter sido pago.

Até então, Alex sentia um pouco de desconforto, mas entendia que os crimes eram em proveito de todos, que precisavam do dinheiro. Mas a partir do momento da morte do amigo, tudo sai de foco, sua vida também. Contraditoriamente, a perda da inocência de Alex faz com que, ao invés de se rebelar, abrace com convicção a vida criminosa junto com o pai – e, com os lucros desta, abre uma loja de materiais esportivos, depois arruma uma namorada (Stefanía Koessl).

Se até então Alex funcionou como o prumo moral, a partir do momento em que ele se corrompe toda a família desce ladeira abaixo, e a questão que o filme levanta é: qual o grau de culpabilidade dos outros membros que, supostamente, não sabiam daquilo que estava acontecendo no quarto dos fundos de sua casa, mesmo ouvindo gritos dia e noite?

Nesse sentido, Trapero e seu time de roteiristas - Esteban Student e Julian Loyola – fazem de “O Clã” um retrato das condições de ascensão e manutenção de governos totalitários – especialmente, é claro, das ditaduras na América Latina. Uma das cenas mais desconfortáveis acontece quando boa parte da família, numa noite qualquer, está diante da televisão e ao fundo, vindo de longe, os urros de uma de suas vítimas que está em cativeiro.

De modo sutil, o diretor expõe a conivência de diversos setores da sociedade que ajudaram, ou, no mínimo, se calaram diante de atrocidades. Há também aqueles que, como Alex, se beneficiaram, e muito, mesmo acreditando não fazer parte do sistema. Sua negação não apenas diz respeito à sua participação, como também a tudo o que estava acontecendo. Isso sem falar na corrupção de menores (os filhos caçulas), envolvidos sem sequer desconfiar a dimensão daquilo que os tragou.   Continuação...

 
Diretor Pablo Trapero segura troféu no Festival de Veneza por "O Clã". 12/9/2015. REUTERS/Stefano Rellandini