9 de Dezembro de 2015 / às 21:51 / em 2 anos

ESTREIA-Em "O Clã", Pablo Trapero usa história policial para examinar questões políticas

Diretor Pablo Trapero segura troféu no Festival de Veneza por "O Clã". 12/9/2015. REUTERS/Stefano Rellandini

SÃO PAULO (Reuters) - A trama de “O Clã”, premiado trabalho do argentino Pablo Trapero (“Abutres”), é uma história tão absurda que só poderia real. Nenhum roteirista seria capaz de imaginar algo tão impressionante e contundente. Partindo de uma série de sequestros da década de 1980, comandados pelo patriarca da família Puccio, o cineasta faz, entre outras coisas, um retrato político de seu país – e, por que não?, da América Latina.

O ano é 1983, pouco depois do colapso da ditadura na Argentina, uma sombra que ainda paira sobre os personagens e a sociedade. A família Puccio leva uma vida de classe média sem regalias, mas também, aparentemente, sem grandes contenções.

O filho mais velho, Alex (Peter Lanzani) é uma estrela do rúgbi com um futuro promissor, mas não o suficiente para a ambição de seu pai, Arquímedes (Guillermo Francella), um homem cujo olhar é tão frio quanto sua alma, que encontra no sequestro de pessoas um negócio lucrativo.

Apesar de a ditadura ser, teoricamente, coisa do passado, Puccio pai ainda tem conexões com altos escalões militares, capazes de acobertá-lo quando precisa. As reuniões de família, geralmente no jantar, são reveladoras. Neles conhecemos os membros do clã, composto também pela matriarca Epifania (Lili Popovich), uma professora; as meninas Silvia (Giselle Motta) e Adriana (Antonia Bengoechea); Guillermo (Franco Masini), que parece o mais deslocado de todos; e o ausente Daniel (Gaston Cocchiarale), cujo apelido é Maguila e que, pelo fato de morar na Nova Zelândia e manter pouco contato com os demais, é motivo de ressentimento de Arquímedes.

Este pai é um homem à moda antiga, para quem família deve permanecer unida a qualquer preço; por isso, não hesita em envolver a todos em seus planos. Alex deve participar do sequestro de um colega do time, a primeira vítima, que é mantido na casa da própria família, sem nunca desconfiar de quem são seus captores. Numa das melhores sequências do longa, o primogênito fica sabendo, pelos colegas de time, num vestiário, que o rapaz foi morto depois de o resgate ter sido pago.

Até então, Alex sentia um pouco de desconforto, mas entendia que os crimes eram em proveito de todos, que precisavam do dinheiro. Mas a partir do momento da morte do amigo, tudo sai de foco, sua vida também. Contraditoriamente, a perda da inocência de Alex faz com que, ao invés de se rebelar, abrace com convicção a vida criminosa junto com o pai – e, com os lucros desta, abre uma loja de materiais esportivos, depois arruma uma namorada (Stefanía Koessl).

Se até então Alex funcionou como o prumo moral, a partir do momento em que ele se corrompe toda a família desce ladeira abaixo, e a questão que o filme levanta é: qual o grau de culpabilidade dos outros membros que, supostamente, não sabiam daquilo que estava acontecendo no quarto dos fundos de sua casa, mesmo ouvindo gritos dia e noite?

Nesse sentido, Trapero e seu time de roteiristas - Esteban Student e Julian Loyola – fazem de “O Clã” um retrato das condições de ascensão e manutenção de governos totalitários – especialmente, é claro, das ditaduras na América Latina. Uma das cenas mais desconfortáveis acontece quando boa parte da família, numa noite qualquer, está diante da televisão e ao fundo, vindo de longe, os urros de uma de suas vítimas que está em cativeiro.

De modo sutil, o diretor expõe a conivência de diversos setores da sociedade que ajudaram, ou, no mínimo, se calaram diante de atrocidades. Há também aqueles que, como Alex, se beneficiaram, e muito, mesmo acreditando não fazer parte do sistema. Sua negação não apenas diz respeito à sua participação, como também a tudo o que estava acontecendo. Isso sem falar na corrupção de menores (os filhos caçulas), envolvidos sem sequer desconfiar a dimensão daquilo que os tragou.

Os resquícios da ditadura não apenas dão segurança ao patriarca como também parecem uma sombra pairando para se materializar novamente. É a crença nessa possibilidade que lhe permite agir como age – sequestrando pessoas em plena luz do dia, sem ninguém ver, ou se alguém vir, é capaz de fingir que não aconteceu nada, por medo. É a sociedade ainda vivendo sob efeito do passado recente. Nesse sentido, Arquímedes é a mais autêntica “viúva da ditadura” esperando pela volta dos dias de opressão, acreditando que sua ausência é apenas momentânea e que de longe o protege.

Merecidamente premiado no Festival de Veneza por esse trabalho, Trapero dirige com uma segurança que, em momentos, lembra uma mescla de Martin Scorsese com Brian de Palma (com uma excelente fotografia de Julian Apezteguia, que trabalha, principalmente, com o chiaroscuro da casa dos Puccio). Mas é no uso das músicas – especialmente com o recorrente “Sunny Afternoon”, da banda inglesa The Kinks – que ele se supera. A combinação de clássicos pop antigos com as abominações que estão acontecendo na tela cria um efeito de estranhamento e desconforto que só fortalece o soco no estômago que “O Clã” prepara para seus momentos finais.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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