ESTREIA-Premiado colombiano "A Terra e a Sombra" aborda mundo rural e primitivo

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015 16:15 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Exibido na Semana da Crítica, em Cannes, em maio passado, e ganhador do prêmio Caméra D’Or (ao qual concorrem todos os filmes de diretores estreantes exibidos no festival), o colombiano “A Terra e a Sombra”, de César Augusto Acevedo, é um filme que tem o tempo da narrativa bastante peculiar.

Alguns poderiam recorre ao termo reducionista “lento” para descrever o longa, uma coprodução com Brasil, Chile e Holanda, mas ele é bem mais do que isso. O diretor, que também assina o roteiro, tenta capturar em imagens e narrativa a vida de personagens que se movem lentamente para o fim – assim como o mundo onde vivem.

Nesse sentido, não é de se espantar que o entorno de sua casa, numa região rural da Colômbia, seja consumido por fogo, e que a fumaça não apenas os cegue como os tenta asfixiar. A chegada de Alfonso (Haimer Leal) é apenas o ponto de partida.

Idoso e distante da família há anos, ele volta para reencontrar o filho, Gerardo (Edison Raigosa), ex-cortador de cana que tem uma doença pulmonar, causada por esse ambiente inóspito, e pouco tempo de vida. Sua mulher (Marleyda Soto) e sua mãe (Hilda Ruizcuida) trabalham nos campos de cana para sustentar a casa.

A situação que o filme retrata é a de uma exploração social extrema e de vidas fadadas a serem consumidas por um trabalho insalubre. Os personagens estão, de várias formas, ligados à terra e não têm outra opção.

Como escapar? Como romper a barreira, real ou imaginária, que os prende àquele local? Quais chances essas pessoas têm num mundo fora dali? Acevedo aponta que é pouco provável que o destino reserve algo melhor a essas pessoas – mas nem por isso elas podem deixar de aspirar a uma vida melhor.

A agonia de Gerardo adquire, então, um valor simbólico. Uma agonia tal qual a do mundo primitivo onde vivem – que também parece com os dias contados. Seu fim é o processo de libertação também das pessoas que estão ao seu redor.

Trabalhando com o diretor de fotografia Mateo Guzman, Acevedo cria imagens que transitam entre o onírico e o realista, entre a esperança e a opressão. Seus quadros são composições meditadas, das quais os personagens são, às vezes, acessórios – o que não deixa de refletir a existência melancólica deles.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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