16 de Dezembro de 2015 / às 18:54 / em 2 anos

ESTREIA-"Labirinto de Mentiras" expõe início das revelações sobre Auschwitz

SÃO PAULO (Reuters) - Representante da Alemanha na corrida por uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro, o drama “Labirinto de Mentiras”, estreia do diretor Giulio Ricciarelli, parte de histórias reais para reconstituir os bastidores de uma grande investigação, nos anos 1960, em Frankfurt, que levou a julgamento alguns dos responsáveis pelas atrocidades no campo de concentração de Auschwitz.

Alexander Fehling durante o Festival de Berlim. 14/2/2011. REUTERS/Thomas Peter

Em 1958, um jovem promotor, Johann Radmann (Alexander Fehling, de “Bastardos Inglórios”), começa sua carreira lidando com banais casos de trânsito. Por mero acaso, atravessa sua vida o jornalista Thomas Gnielka (André Szymanski), que procura interessar a justiça de Frankfurt em processar um ex-guarda de Auschwitz que foi reconhecido por um seu amigo, trabalhando numa escola primária.

Treze anos após o final da 2ª Guerra, ao contrário de hoje, pouco se sabia sobre o que realmente havia ocorrido nos campos de concentração. Na Alemanha Ocidental, vivia-se um processo de “desnazificação”, estimulado pelos poderes anglo-americanos no comando, o que teve como efeito colateral um agudo processo de esquecimento. Os únicos a saberem o que realmente se passou eram as vítimas dos campos, como o artista Simon Kirsch (Johannes Krisch), o amigo do jornalista que reconhecera seu algoz na escola.

Apesar do pouco estímulo que encontra no ambiente judicial – todos os seus colegas mais experientes o desaconselham -, Radmann envolve-se numa investigação, ainda incipiente, que começa a tomar corpo a partir da denúncia do jornalista. Logo batem à porta do promotor inúmeras outras vítimas, desejosas de denunciar as barbaridades que sofreram ou testemunharam.

Radmann encontra um aliado poderoso em seu superior, o procurador-geral Fritz Bauer (Gert Voss) – ele mesmo um judeu que experienciou na pele a perseguição dos nazistas. Mas, à volta deles, não há muitos dispostos a cooperar. Outros membros da corte judicial e mesmo dos arquivos procuram mais colocar obstáculos do que oferecer alguma informação. Muitos não deixam de expressar seu franco descontentamento com o inquérito, que tem como seus alvos mais famosos figuras como Josef Mengele e Adolf Eichmann, ambos na época escondidos na Argentina.

Se é verdade que o filme tem um andamento um tanto didático, ao mesmo tempo revela qualidades na maneira clara como expõe o funcionamento das estruturas de poder da Alemanha na época e os efeitos nocivos da Guerra Fria – que leva mesmo militares norte-americanos, que comandam arquivos importantes, a resistirem a ajudar o promotor.

A luta heroica do jovem Radmann, que amadurece no processo, tanto pessoal como profissionalmente, também põe em evidência uma discussão eterna em países em conflito com seus passados pouco edificantes – seja a Alemanha diante do nazismo, sejam os países latino-americanos, ainda às voltas com o esclarecimento dos crimes de suas ditaduras militares, como é o caso do Brasil.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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