ESTREIA-Nova versão de "Macbeth" investe no realismo

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015 15:56 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - “Seja violento, ousado e firme” é o conselho dado por uma das bruxas a Macbeth (Michael Fassbender), quando ele já é rei. A sugestão parece não ter servido apenas ao personagem, mas também ao diretor australiano Justin Kurzel, que não se esquiva de imprimir a sua adaptação, “Macbeth; ambição e guerra”, muito som e fúria com imagens sempre poderosas, e, não por acaso, borradas de vermelho.

Em seu segundo longa, o cineasta, que competiu em Cannes, mostra uma convicção como poucos, adaptando Shakespeare de maneira respeitosa, mas sem render-se à reverência.

Se a trama – adaptada para o cinema por nomes como Orson Welles, Roman Polanski e Akira Kurosawa, passando por uma equivocada versão brasileira de Vinicius Coimbra, “A Floresta que se Move” – é relativamente conhecida, Kurzel, trabalhando a partir de um roteiro de Jacob Koskoff, Michael Lesslie e Todd Louiso, dá sua interpretação da peça, com muito sangue, barro e estilo.

Filmadas na Escócia da história original, as imagens são fortes e carregadas de beleza e significado com a fotografia assinada por Adam Arkapaw (da primeira temporada de “True Detective”).

Kurzel abre mão de uma cena aqui e ali, mas mantém o peso da peça e a tormenta de seus protagonistas. Estimulado por sua mulher (Marion Cotillard), o nobre guerreiro Macbeth dispõe-se a cumprir a profecia de um quarteto de bruxas (uma delas, uma criança), de que um dia será o rei da Escócia.

O diretor não se deixa levar por simplificações, mas busca uma linha que, num fluxo contínuo, impulsiona a trama, criando assim camadas para os personagens e os atos da tragédia anunciada.

Numa Escócia do século XI que mais parece um reino de uma fantasia obscura, o filme começa com Macbeth e sua Lady chorando a morte do filho pequeno, que será cremado numa pira. Crianças, aliás, têm um papel fundamental nesta adaptação, pontuando a narrativa primeiro como um motivo, até chegar ao final que sugere a continuidade da ambição e disputa de poder.

Macbeth, no entanto, parece começar o longa com uma certa bondade que, aos poucos, na vida e nas batalhas, é consumida até sobrar um vazio, alimentado pela ambição de sua mulher. Esta, por sua vez, parece fazer o caminho inverso: começa maligna e manipuladora, sem qualquer escrúpulo usando o marido, até ser devastada pela ambição que transferiu para ele.

É uma opção ousada do diretor e da atriz, que se mostra bastante diferente daquele tipo de Lady Macbeth que estamos acostumados a ver. Esta é uma personagem que se recolhe, com um crescimento introjetado, que, ao invés de explodir, implode. O monólogo mais famoso – no qual, novamente, se esperam som e fúria – é feito quase num sussurro, num tom de derrota, apesar da vitória dos objetivos do marido. É um plano contínuo, boa parte fechado no rosto dela, o que traduz uma comunhão perfeita entre diretor e atriz.   Continuação...

 
Ator Michael Fassbender (E) e o diretor  Justin Kurzel (D) chegam para a estreia de "Macbeth" na Grã-Bretanha no Edinburgh Festival Theatre, em Edimburgo, na Escócia. 27 de setembro de 2015. REUTERS/Russell Cheyne