December 23, 2015 / 5:58 PM / 2 years ago

ESTREIA-"As Sufragistas" resgata movimento pelo voto feminino na Inglaterra de 1912

4 Min, DE LEITURA

Atriz Carey Mulligan, que interpreta a lavadeira Maud Watts, durante evento em Hollywood. 14/11/2015Mario Anzuoni

SÃO PAULO (Reuters) - Retratando uma das principais lutas das mulheres na Inglaterra, “As Sufragistas”, de Sarah Gavron, tira da invisibilidade figuras que não escreveram suas biografias e foram esquecidas ou difamadas pela imprensa de sua época, no caso, o início do século 20.

Misturando personagens reais, como a líder Emmeline Pankhurst (uma breve aparição de Meryl Streep), com ficcionais – que, na verdade, somam o perfil de várias militantes -, o filme roteirizado por Abi Morgan infiltra uma contagiante urgência nas manifestações, muitas violentas, que levaram à conquista do voto feminino na Inglaterra, com restrições, em 1918, e finalmente aberto a todas as mulheres, em 1928.

O ano da história é 1912, quando poucas evidências de discriminação podiam ser mais gritantes do que a impossibilidade legal das mulheres inglesas não só de votar, como de disputar a guarda dos filhos ou administrar os próprios bens. Elas não têm voz, portanto, nem em casa, nem no trabalho, muito menos no Parlamento.

Um exemplo é a lavadeira Maud Watts (Carey Mulligan), que se esfalfa em longas jornadas diárias, ganha salário menor do que os masculinos e ainda tem como suas tarefas o cuidado da casa, do marido (Ben Whishaw) e do filho pequeno, George (Adam Michael Dodd).

Fora isso, o assédio sexual no ambiente de trabalho é a regra, vitimando garotas pobres que começam a trabalhar desde a infância, caso de Maud, funcionária da lavanderia desde os 7 anos.

O contato de Maud com o movimento sufragista é acidental, num dia em que ela foi ao lado mais rico de Londres fazer uma entrega, sendo surpreendida por uma passeata de aguerridas militantes femininas que quebravam vidraças para chamar a atenção.

Maud nem imagina que este incidente está abrindo um capítulo novo em sua vida, desencadeado pelo contato com sufragistas em seu próprio trabalho, como a colega Violet (Anne-Marie Duff), bem como de outra classe social, como a química Edith Ellyn (Helena Bonham Carter) – em cuja farmácia acontecem reuniões de mobilização feminina.

Ao colocar em paralelo mulheres de histórias tão diferentes, observa-se o quanto cada uma tem a perder. Certamente, Violet e Maud vivem situação mais frágil, especialmente porque não contam, como Edith, com o apoio de um marido solidário.

Pobres e sem direitos legais, elas se arriscam a ficar sem empregos ou mesmo serem afastadas de seus filhos. Todas, sem exceção, estão expostas à violência policial, que é muito dura, e à prisão, sendo marcadas de perto por um rígido inspetor (Brendan Gleeson).

Ainda que particularize a luta feminina pelo voto através destas personagens, permitindo identificação e intimidade, o filme tem como um de seus aspectos mais eloquentes enfatizar seu aspecto coletivo, através de um retrato pulsante das manifestações públicas, em que se acompanha o deslocamento do movimento de seu caráter pacífico, no qual subsistiu por décadas, para uma radicalização maior, depois de esgotados os canais de reivindicação ao governo, levando a ataques a locais públicos, com pedras ou explosivos.

Centro de gravidade do filme, Carey Mulligan sustenta a ambiguidade das situações sem perder de vista a transformação heroica de sua personagem, que simboliza a alta dose de sacrifício envolvida com uma verdade toda própria.

Sem pretender ser aula de história, nem esgotar todas as questões referentes ao movimento que retrata, “As sufragistas” tem o mérito de resgatar os esforços de suas militantes mais anônimas. E o faz com tal autenticidade que consegue escapar da moldura de filme de época, conectando as lutas daqueles dias com outras mais contemporâneas.

Afinal, nunca é demais lembrar que há países, como a Arábia Saudita, em que o direito de voto feminino acaba de ser conquistado, ainda assim, com restrições. E que não faltam países em que às mulheres é negado o direito de estudar ou mesmo de sair à rua desacompanhadas de um homem.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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