ESTREIA–Com vocação para trash, “Paixão Obsessiva” é involuntariamente cômico

quinta-feira, 20 de abril de 2017 20:55 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Numa temporada em que as comédias pouco divertem, o suspense “Paixão Obsessiva” desponta como um dos filmes mais engraçados do ano. Filme B metido a sério, o longa tem uma história que parece desembarcar direto de uma máquina do tempo vinda dos anos de 1980 com um ipad numa mão e um iphone na outra, apoiada numa trama pífia e diálogos no mínimo risíveis.

A trama: Julia Banks (Rosario Dawson), que trabalha num site de histórias de amor (seja lá o que isso for) conhece o homem dos seus sonhos, David Connover (Geoff Stults), dono de uma cervejaria artesanal numa pequena cidade da Califórnia. Para se casar com ele, abandona São Francisco e muda-se para a cidadezinha, onde deverá tornar-se amiga da filha pequena dele, Lily (Isabella Kai Rice), antes das núpcias. A ex-mulher infernal, Tessa, vem de brinde e é interpretada por Katherine Heigl.

Segue, então, a rotina cansativa da ex-do-inferno, e com mais clichês a que tem direito: Tessa se faz de boazinha com Julia na frente de todos, mas planeja enlouquecer a rival até que esta desista do marido ou vá para um manicômio – o que vier primeiro. A pequena Lily é uma ferramenta nas mãos da mãe para manipular David, que atravessa o filme com cara de sonso o tempo todo. É o tipo de história que precisa ter personagens não muito espertos – do contrário, não existiria. Qualquer pessoa com bom senso e esperteza resolveria tudo isso antes de virar uma bola de neve.

Julia tem um segredo do passado: manteve um relacionamento abusivo com um sujeito (Simon Kassianides), que, depois de a espancar sistematicamente, foi impedido pela justiça de se aproximar dela. Mas o prazo desta restrição legal está acabando e, com alguns cliques, Tessa descobre tudo sobre esse episódio, cria um perfil falso da inimiga no Facebook (a verdadeira Julia não tem conta em nenhuma rede social), e seduz o antigo namorado.

Se até aí o filme – escrito por Christina Hodson e David Johnson – não parece sem pé nem cabeça, ele se torna mais bizarro quando a mãe de Tessa (a veterana Cheryl Ladd) entra em cena e psicologia barata invade pela porta da frente para explicar o comportamento doentio da ex-mulher de David.

O filme marca a estreia na direção de Denise Di Novi, premiada produtora de filmes como “Adoráveis Mulheres” e “Um amor para recordar”. A diretora, ao lado da dupla de roteiristas, parece não ter percebido – ou, se percebeu, deixou passar batido – que há elementos bem mais sérios enterrados em meio à bobagem da disputa pela atenção do homem. Julia é negra e, desde a primeira cena – quando dá um depoimento à polícia –, sua história é contestada. E se fosse o contrário: a mulher caucasiana contando os mesmos fatos, acreditariam nela? Enfim, é uma questão que não interessa ao filme.

Ainda no começo do longa, com toda a seriedade do mundo, Tessa canta para a filha uma música francesa infantil chamada “Alouette” cuja letra diz: “Cotovia, oh, gentil cotovia, eu te arrancarei as penas e a cabeça”. Do lado de fora do quarto, Julia ouve, um tanto enternecida, um tanto assustada: ela é, simbolicamente, é claro, a tal cotovia. Esse é o nível da obviedade do filme, que não dá para ser levado a sério, mas também não dá para propriamente divertir-se com ele – é sisudo demais, faltando coragem para assumir a sua vocação para o trash. A única opção que sobra é apenas rir de “Paixão obsessiva”.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

 
Rosario Dawson em Los Angeles
18/4/2017    REUTERS/Phil McCarten