ESTREIA–Rodriguez e Miller mantém fidelidade aos quadrinhos em “Sin City – a Dama Fatal”

quarta-feira, 24 de setembro de 2014 17:00 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Com uma gestação de nove anos, finalmente chega às telas a sequência “Sin City – A Dama Fatal”, uma tradução literal da graphic novel de Frank Miller, dirigida pelo próprio em parceria com o versátil Robert Rodriguez, que consegue ser tão violento (“Um Drink no Inferno”), quanto pueril (“Pequenos Espiões”) em seu ofício.

Na prática, o que se vê na tela, tal como no filme anterior (de 2005), é uma versão quadro a quadro, agora, em 3D, do que se lê nos quadrinhos. Uma parte da crítica e o público leigo chegaram a considerar que esta fora a razão, por ser mais do mesmo, do relativo fracasso na bilheteria norte-americana: abriu em sexto lugar, com apenas US$ 2,6 milhões (em agosto passado), algo muito baixo para os padrões de Hollywood.

Mas a explicação é inconsistente, visto o trabalho final da dupla baseado em três histórias da graphic novel “A Dama Fatal”, “Apenas outra Noite de Sábado” e “A Longa Noite Ruim”, além de uma original para o filme “A Última Dança de Nancy”. Pode-se opinar pelo menor amoldamento à narrativa cinematográfica (o que não importa muito aos fãs dos quadrinhos), mas não pelo conteúdo, saturado de violência, sangue e castigo como no original impresso.

Unidas pela cidade habitada por corruptos e corruptores, as histórias se mesclam e se distanciam. Aqui, vemos novamente o brutamontes Marv (o ladrão de cenas Mickey Rourke), que acorda desmemoriado em um acidente de carro. Relembrando seus passos até ali, percebe que sua aventura começou sábado à noite, quando assistiu a um grupo de estudantes queimar um morador de rua vivo, por prazer perverso, e resolveu vingar o azarado.

No mesmo bar em que Marv começou sua noitada, Dwight (Josh Brolin) recebe a visita da fatal Ava (a exuberante Eva Green), que lhe pede ajuda. Aliás, uma prequel do que se viu no primeiro “Sin City”, quando Dwight foi interpretado por Clive Owen. Uma troca de atores natural, já que o personagem recebe outro rosto após o desfecho de “A Dama Fatal”.

Há também o enredo envolvendo o jogador que nunca perde Johnny (Joseph Gordon-Levitt). Ele vence (em uma insensatez mortal) uma partida de pôquer contra o vilão-mor Senador Rourke (Powers Boothe) de quem, no quarto capítulo (escrito especialmente para o filme), a stripper Nancy (Jessica Alba) pretende se vingar, quatro anos depois da morte de Hartigan (Bruce Willis) - que retorna como fantasma.

Com o mesmo excelente tratamento visual, arrojo pelo qual conquistaram merecidamente prêmio no Festival de Cannes em 2005, acertos na escolha do elenco (em especial Eva Green, desta vez), este thriller, que se autodefine como neo-noir, mostra que a prodigiosa parceria rendeu bons frutos e correspondeu às expectativas técnicas deixadas após o primeiro longa.

O que se pode questionar neste trabalho é um desequilíbrio entre as quatro histórias selecionadas para a produção. Nota-se aqui uma desproporcional potência de “A Dama Fatal” em relação às demais, o que empana o brilho deste filme frente ao seu antecessor, cujos enredos mantiveram a mesma energia. Uma inconstância, deixe-se claro, de origem.

(Por Rodrigo Zavala, do Cineweb)

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