ESTREIA–Comédia argentina “Relatos Selvagens” explora a vingança com humor negro

quarta-feira, 22 de outubro de 2014 17:25 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Chegamos a um ponto que só nos resta a barbárie, parece dizer o argentino “Relatos Selvagens”, exibido em competição em Cannes, filme de abertura da Mostra SP, e que agora estreia no Brasil. Composto de pequenas histórias de cunho moral e humor negro, o longa de Damián Szifrón tornou-se a maior bilheteria nacional em seu país e busca uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

O pequeno prólogo é um primor, envolvendo um avião, meia dúzia de passageiros e um tal de Gabriel Pasternak. Curto e inusitado, esse segmento define o tom ao que vem a seguir: uma sátira social ácida, que se passa na Argentina, mas não estaria de todo descabida se situada no Brasil e outros lugares.

As situações transitam entre o sujeito num dia de fúria contra o sistema – interpretado por Ricardo Darín – a explosão de raiva de uma noiva traída (Erica Rivas), uma espécie de luta de classes na autoestrada (com Leonardo Sbaraglia e Miguel Ángel Platinado Grando), e a corrupção.

Combinando humor, tons surrealistas e melodrama – o que remete ao cinema de Pedro Almodóvar (um dos produtores do longa) – Szifrón, que também assina o roteiro, questiona a validade de uma vingança. Para criar o efeito cômico, as tramas caminham para o exagero, mas nem por isso são de todo descabidas – apenas um tanto improváveis.

Numa delas, por exemplo, dois homens criam uma disputa na estrada. Um deles, visivelmente rico (Sbaraglia) e outro pobre (Platinado Grando). O que começa com uma perseguição – com ecos de “Encurralado”, de Steven Spielberg – se transforma em algo surreal, como nas eternas rusgas entre Papaléguas e Coyote do desenho animado.

Darín é um engenheiro especializado em implosões, que se volta contra o sistema burocrático depois de receber uma multa – não injusta, na verdade. Mas o sistema se revela corrupto numa história envolvendo um homem influente e seu filho, que atropela e mata acidentalmente e sem prestar socorro uma mulher grávida.

A trama se revela gradativamente, incorporando o motorista da família e mostra que, no inferno, ninguém se salva.

Nesse, como nos outros segmentos, a trama se constrói com altas doses de suspense, bem como uma indagação de até onde o diretor será capaz de ir – e ele vai bem longe, basta ver o último episódio, que também é o melhor. Protagonizado por Erica Rivas, interpretando uma noiva que descobre, durante a festa, que seu recém-marido a trai com uma colega de escritório. A vingança é um prato que se come entre cortar o bolo e jogar o buquê.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb