ESTREIA-Biografia de Irmã Dulce torna-se superficial ao tentar contar vida inteira

quarta-feira, 26 de novembro de 2014 18:49 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Irmã Dulce, religiosa baiana, que viveu entre 1914 e 1992, ao contrário de suas colegas de convento, preferia passar os dias e boa parte das noites na rua, cuidando dos pobres e dos doentes, ou envolvida em campanhas sociais – conforme mostra o longa “Irmã Dulce”, que chega aos cinemas de diversos Estados do país depois de estrear no Nordeste.

Dirigido por Vicente Amorim (“Corações Sujos”), a cinebiografia da religiosa, chamada de “anjo bom da Bahia” por sua predileção pelo trabalho comunitário e a partilha de riquezas, cai facilmente no erro típico do gênero: querer dar conta de uma vida inteira em menos de duas horas.

Assim, o filme parece uma colagem de “melhores momentos” ou “trívias da Wikipedia” da vida de Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes, seu nome de batismo – ao contrário de filmes como “Trinta”, por exemplo, recém-lançado no país, que faz um recorte bem delimitado da vida de seu biografado, o carnavalesco Joãosinho Trinta, e assim, pela parte, dá conta do todo.

O primeiro segmento do longa acompanha os anos de formação da jovem, que abandona uma vida de classe média, filha de um dentista e professor universitário (Gracindo Júnior) para entrar no convento pouco depois de se formar professora, em 1933. Nessa fase, a personagem é interpretada por Bianca Comparato.

É nesse momento que Irmã Dulce – nome que escolheu em homenagem à mãe, no filme interpretada por Gloria Pires, em poucas aparições – percebe que aquilo que o convento tem a lhe oferecer não lhe parece suficiente. Para ela, cuidar dos necessitados se torna tão importante quando as horas de orações.

Uma das primeiras pessoas a quem estende a mão é João (Lisandro Oliveira), garoto pobre e doente abandonado na porta do convento. Para cuidar dele, ocupa uma casa abandonada na periferia de Salvador, e em pouco tempo o local já está repleto de doentes, ajudados por ela. É quando o dono resolve tomar o imóvel de volta.

Esse personagem, João, serve com um fio condutor da narrativa de “Irmã Dulce”, aparecendo em diversos momentos na vida da religiosa, e se transformando – quando adulto, é interpretado por Amaurih Oliveira. Já a protagonista, na maturidade, fica a cargo de Regina Braga, que faz um belo trabalho de interpretação.

Aos poucos, Irmã Dulce, torna-se uma espécie de “empreendedora do bem”. Com seu jeito delicado, mas determinado, ela pede ajuda para as pessoas comuns e, para os grandes, pede verbas mesmo. Com esse espírito consegue tocar o seu projeto, chegando a fundar um hospital.

Essa sequência de momentos famosos da vida de Irmã Dulce – que incluem um homem cuspindo em sua mão ao pedir contribuição e a visita do Papa João Paulo 2º, em 1980 – esbarram no didatismo e na estrutura esquemática da narrativa, tudo embalado por uma trilha sonora excessiva, que parece não dar um minuto de respiro ao filme.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

 
Atriz Regina Braga em cena do filme "Irmã Dulce". REUTERS/Divulgação/Ique Esteves