July 1, 2015 / 8:24 PM / in 2 years

ESTREIA-"Meu Verão na Provença" repete clichês do conflito de gerações

5 Min, DE LEITURA

Ator francês Jean Reno chega à cerimônia de abertura do Festival Internacional de Filme de Pequim, na China, em abril do ano passado. 16/04/2014Stringer

SÃO PAULO (Reuters) - Quando o mistral, vento frio e seco, típico do sul da França, sopra na região, já se sabe que ele traz mudanças, desde o simples despentear dos cabelos até as rápidas alterações de temperatura e clima.

Em "Meu Verão na Provença" (2014), ele não tem nenhum destaque no enredo em si, que apresenta a história do trio de irmãos que passa as férias com o avô com quem não tinha contato, mas nem por isso está à toa no título original do novo longa de Rose Bosch.

O nome "Avis de Mistral", algo como "Aviso de Mistral", serve de metáfora para a transformação que a mudança de ares causa aos personagens principais. Uma variação que também se sente dentro da filmografia da própria cineasta.

A paixão pela história, transmitida por seu pai, marcou seu trabalho como roteirista, a exemplo de “1492 - A Conquista do Paraíso” (1992), épico de Ridley Scott sobre a chegada de Cristóvão Colombo à América, e como diretora, no seu segundo longa – sua estreia na função foi na ficção científica “Animal” (2005), premiado no Fantasporto, em Porto Alegre –, “Amor e Ódio” (2010), drama histórico sobre a situação dos judeus franceses, entregues pelo próprio governo aos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

Nesta obra, porém, Bosch busca inspiração na sua própria infância na Provença – ela nasceu em Avignon – para fazer esta comédia dramática.

O filme já começa com os irmãos parisienses indo rumo ao sul junto com a avó (Anna Galiena), já que, após a separação dos pais, a mãe deles viaja para o Canadá, onde conseguiu uma ótima oportunidade de trabalho durante o verão.

Quando desembarcam, surpreendem o rabugento Paul (Jean Reno, dando a maior credibilidade possível a um personagem “rascunhado”), que, diferente da esposa Irène, nunca teve contato com os netos, pois está brigado com a filha há muitos anos, quando ela saíra de casa.

Ainda abalados com o divórcio e o afastamento do pai – Rose sabiamente não se dá ao trabalho de explicar o porquê –, o jovem Adrien (Hugo Dessioux, videoblogger e comediante), a adolescente Léa (Chloé Jouannet, vinda de uma família de atores) e o pequeno Théo (Lukas Pelissier, surdo de nascença assim como seu personagem) têm grandes dificuldades em se adaptar à vida no campo e conviver com o avô, deflagrando o conflito de gerações que marca a história.

Só pela sinopse dá para perceber que o enredo não difere muito de alguns filmes que o espectador se flagra assistindo na televisão, em que novas ou interrompidas relações familiares são construídas arduamente – com aquela lição de moral no final, é claro.

O roteiro também não tenta afastar-se disso, já que está repleto de clichês. A maioria é utilizada de maneira equivocada ou embaraçosa, como os estereótipos usados no “momento hippie” da película, quando Paul e Irène reencontram seus amigos estradeiros do passado, que chegam de moto em sua propriedade; ou na construção de Magali (Aure Atika) como personagem que acende o desejo dos homens da história.

Em contrapartida, apesar de sentimentalista e previsível, a relação entre Paul e Théo é a mais sincera do longa, culminando em uma bela cena, onde a fotografia de Stéphane Le Parc – remetendo ao “caminhar” da câmera característico das obras do Terrence Malick – mostra, sob o ponto de vista do neto, o avô encantado com suas oliveiras.

Aliás, o garoto está na abertura do filme, em que a sua viagem de trem ao som de “The Sound Of Silence”, da dupla Simon & Garfunkel, além de ser uma clara referência ao clássico “A Primeira Noite de um Homem” (1967) do Mike Nichols, apresenta o personagem de uma maneira muito poética.

É uma pena que a promessa inicial não seja cumprida e “Meu Verão na Provença” entregue algo abaixo das expectativas.

O cenário provençal, desde a modernidade da estação em Avignon e o ar pitoresco da vila de Saint-Rémy-de-Provence até os campos de oliveiras e a paisagem de Camarga – algo próximo de um Pantanal francês –, embalado por algumas músicas típicas e muitas anglófonas – em uma clara tentativa de agradar ao público internacional –, e a companhia de um carismático elenco garantem uma sessão agradável.

No entanto, os talentos envolvidos e a beleza da região careciam de um esforço cinematográfico mais elaborado.

(Por Nayara Reynaud, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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