July 8, 2015 / 6:50 PM / 2 years ago

ESTREIA–Drama alemão “Phoenix” explora dilemas pós-Holocausto

4 Min, DE LEITURA

SÃO PAULO (Reuters) - O diretor alemão Christian Petzold não é econômico no impacto emocional que impinge à audiência. Com um trabalho elegante e minucioso, iniciado ainda na televisão germânica na década de 1990, consegue ser moderado na construção de suas histórias, sem deixar que a tensão e a complexidade de seus personagens transborde da tela.

O cineasta o fez em “Yella” (2007) e, mais tarde, em “Bárbara” (2012), vencedor do Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim. De lá, saiu consagrado internacionalmente como um dos grandes diretores do cinema alemão. Reconhecimento que se mostra absolutamente verdadeiro em “Phoenix”.

Em seu novo filme, Petzold adaptou o romance policial “Le Retour des Cendres” (ou “o retorno das cinzas”), do francês Hubert Monteilhet -- que já havia sido filmado em 1965, pelo britânico J. Lee Thompson.

Uma versão, claro, à sua maneira, noir, em ressonância às particularidades de seu cinema, transferindo a história para Berlim e alterando o desfecho extremamente trágico, um sinal claro de comedimento.

No roteiro alemão, a trama é focada em Nelly (Nina Hoss, em seu quinto filme com o diretor), uma cantora judia enviada aos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

Sobrevivente de Auschwitz, acaba desfigurada, e com a ajuda de sua amiga Lene (a rouba-cenas Nina Kunzendorf), viaja à Suíça para uma operação de reconstrução facial.

Apesar da opinião médica que sugere “um novo rosto para uma nova vida” (que inclui até o da diva austríaca Hedy Lamarr), Nelly é firme: quer seu rosto de volta para reencontrar seu marido Johnny (Ronald Zehrfeld).

O desejo da sobrevivente tem um gosto amargo para Lene, que sonha em viver com a amiga nos Territórios Palestinos e sabe, como funcionária da sede de arquivos judeus, que o rapaz pode ter contribuído para a prisão da esposa.

Ao voltar a Berlim, Nelly reencontra o marido na boate Phoenix, a alegria dos soldados americanos e uma transparente alegoria mitológica à história. Mas Johnny, agora Johannes, não a reconhece. Pior, ao constatar que a estranha tem certa semelhança com sua mulher, quer aplicar um golpe: que ela faça o papel da Nelly, dada como morta, reaparecendo para ficar com sua herança.

Ignorando os avisos de Lene e os próprios fatos à sua frente, Nelly entra no jogo de Johnny, não assumindo perante ele sua verdadeira identidade. Nas camadas de tensão que sobrepõem a narrativa, pouco importa o dinheiro, mas se em algum momento ele se dará conta da situação surreal em que se colocou.

Para além do trabalho bem-acabado de Christian Petzold (na direção e roteiro), que dialoga com o cinema do gigante Alfred Hitchcock (como em “Um Corpo que Cai”, 1958), Nina Hoss sustenta uma atuação vibrante, transcendendo a complexidade de sua personagem nos menores gestos.

Uma busca de sentido e identidade a partir de um amor catártico, com o qual Petzold tenta até expurgar o passado recente alemão.

(Por Rodrigo Zavala, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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