29 de Julho de 2015 / às 18:54 / 2 anos atrás

ESTREIA-"D.U.F.F." tenta, mas não consegue fugir dos clichês adolescentes

Atriz Mae Whitman posa na pré-estreia do filme "D.U.F.F.", em Hollywood, nos Estados Unidos. 12/02/2015Mario Anzuoni

SÃO PAULO (Reuters) - O subgênero "high school", dos filmes centrados no ensino médio norte-americano, possui, quase como regra, os estereótipos presentes no ambiente escolar como força motriz de suas tramas.

Na realidade, é ingênuo acreditar que somente os jovens são tão cruéis uns com os outros. Mas como a adolescência é uma fase de nervos à flor da pele, em que os problemas parecem maiores do que já são, o velho hábito de rotular as pessoas e atribuir papéis pré-determinados a elas e a si mesmo se torna mais evidente nesta fase da vida.

Por isso, a protagonista de "D.U.F.F." (2015) inicia o filme falando sobre as mudanças nos paradigmas que diferenciavam, por exemplo, um nerd de um atleta, mas que os novos tempos trazem novas designações que ela viria a conhecer tardiamente, como a que dá título a esta comédia romântica adolescente, vagamente inspirada no livro homônimo de Kody Keplinger.

Às vésperas de terminar o colégio, Bianca Piper (Mae Whitman, de "Scott Pilgrim Contra o Mundo") fica sabendo, através de seu inconveniente vizinho e amigo de infância, o bonito jogador de futebol americano Wesley (Robbie Amell, o Nuclear da série "The Flash"), que é uma D.U.F.F., sigla em inglês para "Designated Ugly Fat Friend", que significa "amigo(a) designado(a) gordo(a) e feio(a)".

Mas o apelido não é tão literal em sua essência, já que, na realidade, é atribuído àqueles menos atraentes de um grupo, seja pela aparência comum, por terem menos dinheiro ou talento, e que geralmente servem para elevar a beleza ou status dos amigos e servirem como uma espécie de "informante" para os outros se relacionarem com seus colegas.

Refletindo sobre sua amizade com a aspirante a fashionista Jess (Skyler Samuels, da última temporada de "American Horror Story") e a esportista Casey (Bianca A. Santos, de "Ouija: O Jogo dos Espíritos"), a garota amante de filmes cult, especialmente de zumbis, com pouca vaidade e autoestima, acredita que sempre exercera este papel.

Ela resolve então romper com suas BFF's – esta, uma sigla em inglês bem mais conhecida para "melhores amigas" – e fazer um pacto com Wes para que ele a ajude a deixar de ser uma DUFF e tornar-se mais atraente, enquanto Bianca retribui com um reforço de ciências para o atleta não perder a sua bolsa para a faculdade. Daí para a frente, o espectador já pode imaginar o desenrolar.

A princípio, a produção parece reciclar e, ao mesmo tempo, se afastar dos clichês do subgênero, seja ao tornar tridimensional a figura do aparente atleta idiota em Wes ou quando leva ao ridículo o momento típico da transformação da garota à la Pigmaleão.

Referências à peça de George Bernard Shaw, inspirada no mito grego do escultor que se apaixonou por sua estátua e que inspirou o musical "My Fair Lady" (1964), já foram vistas em "As Patricinhas de Beverly Hills" (1995) e "Ela É Demais" (1999), por exemplo.

O diretor Ari Sandel flerta com o caricato em breves momentos no seu longa ficcional de estreia, mas fica muito longe da ousadia que mostrou e lhe rendeu um Oscar em seu primeiro curta "West Bank Story" (2005), um musical cômico da história de amor, estilo Romeu e Julieta e "Amor, Sublime Amor/West Side Story" (1961), entre uma atendente de fast-food palestina e um soldado judeu na Cisjordânia.

Sua direção, não muito inventiva, e o roteiro de Josh A. Cagan recaem em alguns lugares-comuns no decorrer da trama, com certa espirituosidade, mas sem aquela ironia necessária, que “Meninas Malvadas” (2004) entregava tão bem através do texto de Tina Fey e de uma condução correta e ágil de Mark Waters.

Aliás, em um nicho que esteve tão em alta nos anos 1980 com os filmes de John Hughes – “Clube dos Cinco” (1985) e “Curtindo a Vida Adoidado” (1986), para citar apenas alguns – e na década de 90 com as releituras de clássicos da literatura – o próprio “As Patricinhas...” baseado em “Emma”, de Jane Austen, e “10 Coisas que Eu Odeio em Você” (1999) em “A Megera Domada” de Shakespeare, “Meninas Malvadas” talvez seja o último clássico para grande parte do público.

De lá para cá, tiveram destaque apenas a popularidade da trilogia “High School Musical” (2006, 07, 08), a sensibilidade de “As Vantagens de Ser Invisível” (2012) – do qual Mae faz parte – e o sarcasmo de “A Mentira” (2010).

Em um cenário escasso como este, pode ser que “D.U.F.F.” acabe encontrando um espaço para se tornar um daqueles filmes exaustivamente exibidos na televisão como retrato de uma geração em que as redes sociais virtuais se confundem com seus laços reais de convívio.

Contribuem para isso a boa química apresentada por Whitman e Amell na dinâmica tensa entre Bianca e Wes. É uma pena que a relação da protagonista com suas amigas seja tão pouco explorada para torná-la crível.

Contudo, mesmo com a presença contida do exagerado comediante Ken Jeong como professor e responsável pelo jornal da escola e os poucos e bons momentos de Allison Janney como sua mãe, é o talento e carisma de Mae à frente desta comédia que saltam mais à vista.

O espectador pode até não reconhecer de imediato, mas depois recordará, ou descobrirá após uma breve pesquisa, o trabalho da atriz ainda criança em “Um Dia Especial” (1996) e “Quando o Amor Acontece” (1998); como dubladora original em vários desenhos animados; e de sua presença nas séries “Arrested Development” (2003-) e “Parenthood” (2010-2015).

Mas sua carreira sólida e a boa arrecadação de “D.U.F.F.” – que, inclusive, tem três indicações ao Teen Choice Awards, prêmio voltado ao público juvenil – não foram suficientes para que Mae Whitman reprisasse seu papel como a filha do Presidente Whitmore, que viveu em “Independence Day” (1996), na sequência do blockbuster prevista para o ano que vem.

A produção, que nem a procurou, buscava uma atriz loura e sexy – no último caso, um perfil popularizado com a franquia “Transformers” – escolhendo Maika Monroe de “Corrente do Mal” (2014) no final, o que gerou uma discussão local sobre os rótulos e padronizações de biotipos que os estúdios acabam criando com suas escolhas de casting.

No fim das contas, ainda que velada, Hollywood nada mais é que uma grande “high school”.

(Por Nayara Reynaud, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

0 : 0
  • narrow-browser-and-phone
  • medium-browser-and-portrait-tablet
  • landscape-tablet
  • medium-wide-browser
  • wide-browser-and-larger
  • medium-browser-and-landscape-tablet
  • medium-wide-browser-and-larger
  • above-phone
  • portrait-tablet-and-above
  • above-portrait-tablet
  • landscape-tablet-and-above
  • landscape-tablet-and-medium-wide-browser
  • portrait-tablet-and-below
  • landscape-tablet-and-below