ESTREIA-"Que Horas Ela Volta?" explora contradições do universo feminino e social brasileiro

quarta-feira, 26 de agosto de 2015 16:24 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Consagrada por filmes como "Durval Discos" (2002) e "É Proibido Fumar" (2009), a diretora e roteirista paulista Anna Muylaert atinge novo patamar em "Que Horas Ela Volta?", em que mistura com habilidade o drama familiar e a reflexão social, num filme que fala com propriedade e sentimento sobre o Brasil de hoje.

Seus temas não dialogam só com o Brasil, aliás, como atestam os prêmios internacionais que a produção vem colecionando desde o início do ano, caso do Festival de Berlim, onde colheu o prêmio de melhor filme na mostra Panorama, e no Festival de Sundance, onde as atrizes Regina Casé e Camila Márdila dividiram o troféu de melhor interpretação feminina em filme estrangeiro.

Um dos grandes méritos deste roteiro, também assinado por Anna, é a capacidade de articular vários planos de uma mesma situação e multiplicar os olhares sobre ela. Assim, elege como sua protagonista a doméstica Val (Regina Casé), uma pernambucana que há vários anos trabalha como babá e empregada na casa de uma família de classe média alta em São Paulo. Ou seja, assume o ponto de vista de alguém que ocupa o andar de baixo, literal e metaforicamente, na trama.

Tendo criado desde pequeno o filho da família, Fabinho (Michel Joelsas), Val é uma espécie de mãe substituta dele para a executiva Bárbara (Karine Teles), sua patroa. E a própria Val deixou para trás a própria filha, Jessica (Camila Márdila), que foi criada em Pernambuco por outra mulher, a quem ela envia regularmente dinheiro.

A sobreposição destes papéis femininos trocados é apenas uma das muitas sutilezas – e contradições – da realidade brasileira que a história desdobra dramaticamente para abordar seus conflitos e mudanças.

Assim, Val será confrontada com as mágoas de sua situação quando a filha decide vir para São Paulo, hospedando-se com ela, porque planeja prestar vestibular.

O fato de que a filha da empregada venha disputar o mesmo vestibular que o filho dos patrões – Arquitetura na FAU-USP – evidencia um quadro de transformação social e também de confronto.

É visível o desconforto de Bárbara com este detalhe, bem como com a atitude de sua nova hóspede na casa. Jessica, afinal, está longe de se conformar, como sua mãe, com os limites apertados de seu quartinho de empregada e com a proibição do acesso à piscina e até a certos alimentos, como até um prosaico sorvete.

A mãe se desespera com as ousadias da filha, o que também evidencia o fato de que as duas mal se conhecem, porque pouco conviveram. E a história flui bem melhor pelo fato de que a diretora-roteirista recusa sempre colocar ênfase excessiva tanto nos aspectos sócio-políticos como melodramáticos da história.   Continuação...

 
Atriz Regina Casé em cena do filme "Que Horas Ela Volta". REUTERS/Divulgação/Aline Arruda