2 de Setembro de 2015 / às 19:24 / 2 anos atrás

ESTREIA-Remake de série dos anos 1960, "O Agente da U.N.C.L.E." diverte

Ator Henry Cavill participa do lançamento de "O Agente da U.N.C.L.E." em Nova York. 10/8/2015.Eduardo Munoz

SÃO PAULO (Reuters) - Era a década de 1960 e o mundo vivia o auge da Guerra Fria, com a Crise dos Mísseis em Cuba acirrando a tensão entre Estados Unidos e União Soviética no ano de 1962, que também marcaria a entrada triunfal do icônico personagem do escritor Ian Fleming, James Bond, no cinema.

Em 1964, com toda repercussão de “007 - Contra Goldfinger” – terceiro filme e segunda maior bilheteria da franquia, corrigida a inflação – e em seus últimos meses de vida, o autor inglês ajudou Sam Rolfe a criar o conceito e o então personagem principal da série norte-americana “O Agente da U.N.C.L.E.”, sobre uma organização internacional de contraespionagem que reúne agentes de várias nacionalidades para assegurar a paz mundial.

Isso porque, a princípio, o espião ianque Napoleon Solo, interpretado por Robert Vaughn, teria todo o foco da atração. Mas no decorrer da primeira temporada, o charme do agente soviético Illya Kuryakin – que o diga a menina Sally Draper do seriado “Mad Men” (2007-2015) –, vivido por David McCallum, atualmente em “NCIS: Investigações Criminais” (2003-), fez com que o público pedisse mais espaço para o personagem, que logo ganhou status de coprotagonista.

E os atores se tornaram astros quando o programa caiu nas graças dos espectadores com seu tom de paródia e a identificação criada pela presença recorrente de um civil inocente envolvido nas operações em cada episódio.

Além das quatro temporadas exibidas na NBC, até 1968, e retransmitidas no Brasil pela extinta TV Excelsior, a partir de 1966, alguns episódios transformados em longas-metragens para o cinema, uma série derivada, romances e histórias em quadrinhos foram alguns dos frutos.

O fenômeno sessentista volta agora ao público em uma nova versão cinematográfica criada por Guy Ritchie, cineasta conhecido pelos seus primeiros trabalhos ambientados no submundo do crime em Londres e sua releitura do clássico detetive “Sherlock Holmes” em dois filmes (2009 e 2011). O diretor britânico, contudo, investe em uma espécie de prequel, contando as origens da organização secreta e criando um novo passado para os personagens principais.

“O Agente da U.N.C.L.E.” (2015) introduz seu Napoleon Solo (Henry Cavill), quando o agente secreto da CIA entra na Alemanha Oriental de 1963 para cooptar a mecânica Gaby Teller (Alicia Vikander) na busca pelo pai dela (Christian Berkel), um renomado ex-cientista nazista que servia aos EUA no pós-guerra, mas desapareceu misteriosamente. O problema é que o implacável espião da KGB Illya Kuryakin (Armie Hammer) também foi instruído para a mesma missão, desencadeando uma perseguição de carros que arrebatadoramente abre o longa.

Porém, para o desgosto de ambos, os dois são designados a trabalhar juntos logo em seguida e embarcam com a garota para Roma em busca do cientista, pois ianques e russos temem que os Vinciguerra, império empresarial familiar liderado por Victoria (Elizabeth Debicki), estejam fabricando ogivas nucleares ilegais. Para os fãs da série, a boa notícia é que Waverly, um dos personagens principais, aparece, discretamente, mas em bons momentos do astro inglês Hugh Grant.

Uma pena é que nenhum ator da obra original participe do filme – o jogador de futebol David Beckham está nos créditos como um projecionista, algo que a autora deste texto não foi capaz de ver; então, prepare seus olhos de lince se lhe interessar.

No entanto, o distanciamento temporal permite recriar o período da Guerra Fria com uma tensão cômica maior a partir da rivalidade entre EUA e URSS, representada em uma interessante dinâmica da dupla de protagonistas. Com sua polidez britânica, Cavill constrói seu espião norte-americano egocêntrico com um humor que o espectador não está acostumado a ver no novo Superman e que se mostra muito eficiente, especialmente na cena do caminhão.

Entre êxitos como “A Rede Social” (2010) e o fracasso de “O Cavaleiro Solitário” (2013), Hammer tem, em sua carreira irregular, um papel que não só usa bem seu “physique du role” como lhe permite explorar a instabilidade emocional do agente, apesar do pífio sotaque russo.

Além disso, há uma ótima química dele com Vikander, que, com seu charme à la Hepburn, aproveita o estreito espaço a sua disposição. A sueca, aliás, já mostrou, no surpreendente “Ex-Machina: Instinto Artificial”, que não é somente uma atriz a se observar, mas uma estrela em potencial, como os quatro longas de peso com sua presença que ainda estreiam neste ano poderão atestar.

Quanto à vilã, apesar da força e frieza do olhar de Debicki, o perigo nunca parece iminente na história por culpa do roteiro de Ritchie e seu colaborador Lionel Wigram: a trama e até o seu plot twist são previsíveis – talvez seja essa a intenção.

A graciosidade da narrativa é que compensa, com a ajuda do primor da equipe técnica. A produção de arte de Oliver Scholl – “No Limite do Amanhã” (2014) – e o figurino de Joanna Johnston recriam os anos 1960 com certo magnetismo, acentuados pelo aspecto Technicolor que marca grande parte da fotografia de John Mathieson – de “Gladiador” (2000).

Junto a eles, está a trilha sonora, cujo tom retro-cômico, que já é marca da filmografia do cineasta, ganha com o excelente trabalho de Daniel Pemberton entre o jazz e Ennio Morricone e a seleção musical que vai de Roberta Flack e Nina Simone a clássicos italianos e o brasileiríssimo Tom Zé.

Ao despontar com “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” (1998) e “Snatch – Porcos e Diamantes” (2000), Guy criou nos cinéfilos um certo extremismo dos que amam sua temática, roteiros circulares e virtuosismo técnico, e dos que o odeiam por não verem mais do que um vazio por trás disto. Para o padrão Ritchie de hiperatividade visual, ele está até controlado aqui, pois, para fazer uma homenagem em forma de sátira, teve de se adaptar ao ritmo sessentista.

Mesmo sem originalidade, suas perseguições e mise-en-scène se assemelham a uma coreografia de dança de salão que encanta pela elegância, que vai além dos ternos de Solo, e uma descontração inerente, e não a movimentos frenéticos aos quais ele geralmente recorre, ou até o nervosismo e tensão habituais nos filmes de espionagem contemporâneos.

Na realidade, o grande problema de “O Agente da U.N.C.L.E.” é timing. Depois de anos em projeto, foi lançado em um período em que filmes do gênero com o tom de paródia predominaram: “Kingsman: Serviço Secreto” (2014) do amigo de Guy, Matthew Vaughn; “A Espiã Que Sabia de Menos” (2015), outro fruto da parceria entre Paul Feig e Melissa McCarthy; e “Missão: Impossível – Nação Secreta” (2015), ainda em cartaz e também inspirado em uma série dos anos 60. Enfrentando na bilheteria dos EUA a surpresa “Straight Outta Compton” (2015), cinebiografia do grupo de rap N.W.A., os maus resultados comerciais contrastam com as boas notas do público em sites especializados; até porque é difícil não se surpreender com um escapismo tão divertido.

(Por Nayara Reynaud, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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