ESTREIA-Com Fernanda Montenegro, "Infância" revisita biografia do diretor Domingos de Oliveira

quarta-feira, 9 de setembro de 2015 17:06 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Baseado numa peça do começo dos anos de 1980, "Do Fundo do Lago Escuro" – com uma remontagem recente, na qual o próprio autor, Domingos de Oliveira, fazia o papel da protagonista, sua avó –, "Infância" é uma combinação das memórias do diretor, talvez o cineasta brasileiro que melhor tenha lidado com a questão da paixão e do afeto, em filmes como "Amores" (98), "Separações" (2002) e "Juventude" (2008).

Mais fiel do que nunca à máxima machadiana de que o menino é pai do homem, Domingos esconde-se por trás do alter ego infantil Rodrigo (o estreante Raul Guaraná). Aos 8 anos, o garoto está no limiar de muitas mudanças vitais, inserido num fechado e aristocrático clã familiar, morador de uma mansão no bairro carioca do Botafogo.

A família é dominada pela matriarca dona Mocinha (Fernanda Montenegro), uma viúva que exerce um comando nada sutil sobre a vida de filhos, genro, neto e empregados. No entanto, esse domínio está se esfarelando a olhos vistos, pressionado pela realidade em transformação.

A senhora, que não admite separações de casais, teve que engolir o rompimento do matrimônio do filho, Orlando (Ricardo Kosovski), um madurão na meia-idade ocioso e chegado à bebida.

O genro Henrique (Paulo Betti), marido de sua filha Conceição (Priscila Rozenbaum), é quem administra os bens. Ele vendeu, sem a sogra saber, alguns terrenos no Andaraí, supostamente porque a situação econômica exigia. Agora, quem tem coragem de contar à dona Mocinha o que acontece?

Nessa dificuldade cada vez maior de se conectar com uma realidade em crescente mudança está o dado central do filme, cujo enredo lida com o tempo, sua passagem, seus efeitos.

Também o menino é passageiro do tempo, no sentido contrário ao da avó, tendo que aprender rapidamente como funciona este mundo adulto em que nem todas as verdades são admitidas - como o verdadeiro destino de sua cachorrinha desaparecida, que ele terá que descobrir por si mesmo.

Ambientada em 1950, a história incorpora um componente político. Fã ardorosa do político e jornalista conservador Carlos Lacerda, dona Mocinha aguarda impaciente o horário de seu programa no rádio, em que ele vocifera ácidas críticas contra a campanha presidencial de Getúlio Vargas.

A rigidez das regras da casa, que desmoronam irresistivelmente inclusive sob o peso da hipocrisia, contrasta com a liberdade da fantasia do menino Rodrigo, que viaja nas leituras, sonhando com a carreira de futuro escritor.   Continuação...

 
Atriz Fernanda Montenegro durante o Emmy Awards, em Nova York, nos Estados Unidos. 25/11/2013 REUTERS/Carlo Allegri