September 9, 2015 / 7:44 PM / in 2 years

ESTREIA-“Nocaute” repete clichês de filmes de boxe mas conta com carisma de Jake Gyllenhaal

5 Min, DE LEITURA

SÃO PAULO (Reuters) - No boxe, assim como em outros esportes, ser canhoto é uma vantagem, por ser um fator-surpresa contra adversários que não estão acostumados com a inversão dos movimentos.

Os boxeadores canhotos, geralmente, usam a posição southpaw para lutar, na qual mantêm o pé e mão direitos à frente, para que o seu melhor soco, o da mão esquerda, venha de trás com maior força para derrubar o oponente.

O termo está no nome original do novo filme de Antoine Fuqua, “Nocaute” (2015), no qual “Southpaw” exerce vários sentidos: além de ser o modo como o protagonista, interpretado por Jake Gyllenhaal, luta, vai de encontro com a ideia de que o destino preparou uma série de surpresas ao personagem e que este surpreende a todos após a sua queda.

Já o título no Brasil é mais apegado a esta sequência de socos que a vida, ou melhor, o roteirista Kurt Sutter aplica em seu protagonista.

A sensação de déjà vu que pode ter acometido o leitor no último parágrafo é a mesma de quem assiste ao filme. Em um subgênero que, por si só, é previsível, tendo “Touro Indomável” (1980) como a principal exceção, mas que ainda assim tem apelo popular, falta neste longa o diferencial de “Menina de Ouro” (2004), “O Lutador” (2008) e “O Vencedor” (2010), ficando em exemplos recentes bem-sucedidos.

No quesito Oscar, porém, a produção pode conseguir uma indicação com a performance de Gyllenhaal, ainda mais porque a Academia deve isto a ele, por ter desprezado o ator em “O Abutre” (2014) na última edição.

Mesmo assim, em sua mistura das fórmulas dos filmes de boxe com a tragédia e o melodrama, “Nocaute” faz com que o espectador – com exceção daqueles que já vão com a defesa armada por não gostarem do ator, do diretor ou do gênero – baixe a sua guarda e queira acompanhar atentamente o que acontecerá com Billy Hope, um protagonista cujo clichê já começa no sobrenome, que significa “esperança” em inglês.

Criado em um orfanato, onde conheceu sua mulher Maureen (Rachel McAdams, em uma personagem mais forte do que a plateia está acostumada a ver), ele encontrou em sua companheira para todas as horas e no boxe um meio de escapar e traçar uma nova trajetória.

O campeão dos meio-pesados vive o seu próprio sonho norte-americano, morando com a família em uma bela mansão, com seus cinturões e seu empresário (Curtis "50 Cent" Jackson) prestes a fechar um lucrativo contrato para as próximas lutas.

Até que um incidente – o qual não será detalhado aqui, embora o trailer da produção entregue tudo – degringola uma espiral de decadência e Hope precisa fazer de tudo para voltar ao boxe e à companhia de sua filha Leila (Oona Laurence).

Neste longa, Fuqua trabalha em terreno já conhecido, já que a violência e testosterona fazem parte de sua filmografia, que tem em “Dia de Treinamento” (2001) seu ponto alto.

A fotografia de Mauro Fiore – mais sombria fora do ringue do que sob os holofotes dele – e a montagem de John Refoua colaboram para esta sensação. No entanto, o editor não evita uma queda de ritmo no segundo ato, após um envolvente primeiro terço de exibição dedicado à apresentação de Billy e sua relação com a mulher.

Em seu primeiro roteiro no cinema, o criador das séries “The Shield – Acima da Lei” (2002-2008) e “Sons of Anarchy” (2008-2014) não se arrisca e falha ao recorrer ao clichê de um rival que tem de ser necessariamente sujo, concebendo um tiroteio um tanto apressado e absurdo.

Quanto à estrela do filme, é preciso dizer que o rapper Eminem, além de ser o responsável pelo início da produção junto com Sutter, daria vida originalmente ao protagonista, mas desistiu para se dedicar mais à sua carreira musical. O cantor, porém, contribui com duas músicas na trilha, na qual o rap não chega a chamar tanta atenção quanto as melodias melodramáticas de James Horner, compositor ganhador do Oscar, falecido em junho.

Gyllenhaal, que não hesitou em, depois de perder 13 quilos para “O Abutre”, recuperar e ganhar mais massa muscular em seis meses de treinamento para adquirir um físico de lutador. Todo seu esforço transparece na transformação vista na tela e, fora um ou outro maneirismo, o ator é o grande responsável por conduzir a história e fazer o espectador se compadecer de um cara que poderia ser facilmente odiado.

Pode não ser o suficiente para ganhar os prêmios que ele parece buscar tanto, mas é o bastante para dar a “Nocaute” a satisfação que o público procura.

(Por Nayara Reynaud, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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