ESTREIA–Andrea Tonacci investiga a passagem do tempo em “Já Visto Jamais Visto”

quarta-feira, 16 de setembro de 2015 15:22 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - No começo dos anos de 1970, o diretor Andrea Tonacci balançou os alicerces do cinema com seu “Bang Bang”, um filme anárquico, divertido e ácido sobre o estado das coisas e da cultura. Em 2009, novamente, com seu “Serras da Desordem”, questionou os limites do documentário e da representação, colocando em foco a questão indígena. O longa lhe rendeu diversos prêmios – entre ele melhor filme para a Associação de Críticos de SP, e diretor, no Festival de Gramado – além de discussões e questionamentos sobre os avanços e limitações da linguagem cinematográfica.

O novo trabalho do cineasta não é diferente daquilo que tem feito em sua filmografia. “Já Visto Jamais Visto” é um filme de fragmentações que buscam por um todo. Em parceria com a montadora Cristina Amaral, Tonacci compõe um painel que desafia o tempo e a forma. Valendo-se de filmes e fotografias de seu acervo, o cineasta investiga a passagem dos anos e o processo de amadurecimento – que analisa, então, não apenas como pessoa, mas também como diretor de cinema.

São imagens que acumulou durante meio século, delas retirando partes que tentam englobar a experiência do total. Estão na tela não apenas momentos de seus filmes “Bang Bang” e “Blá Blá Blá” (1968), mas de outras obras que não finalizou, como “Os últimos heróis” (1966), “At Any Time” (1960-1988) e “Paixões” (1994), além de vídeos caseiros de sua família. Essa construção pela memória resulta em momentos oníricos e na transitoriedade das lembranças. Essas, então, são uma tentativa de aprisionar o passado e impedir o esvaecimento.

A fragmentação, típica de nossa pós-modernidade, impede-nos de ver o todo – no filme, seria o fluxo da passagem do tempo, que vem truncado e com lacunas. Cabe ao exercício mental de cada espectador completar os espaços e dar sentido ao que se vê na tela.

Num diálogo com um amigo, num set de filmagens, quando parecem discutir sobre uma questão acerca do tempo, Tonacci aconselha: “Você tem que seguir o seu tempo, quem vai determinar seu tempo na ação, seja você o investigador da história... Siga o seu tempo”. Essas palavras ecoam no presente, na negação da linearidade da narrativa em “Já Visto Jamais Visto”, que segue um fluxo de consciência modernista, pautado pela memória.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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