ESTREIA-Diretor dinamarquês revive drama pessoal em “Tristeza e Alegria”

quarta-feira, 16 de setembro de 2015 16:20 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - No livro em que expõe toda a sua teoria cinematográfica, o cineasta russo Andrei Tarkovsky afirma que o espectador utiliza o cinema para preencher as lacunas de sua própria existência.

Pode-se dizer que o mesmo ocorre com o realizador e são inúmeros os exemplos de diretores que usam a tela como divã. No entanto, raros são os casos em que um título, como o da obra literária do cineasta russo, “Esculpir o Tempo”, se encaixe tão bem quanto no testamento fílmico de Nils Malmros, “Tristeza e Alegria” (2013) – o candidato da Dinamarca ao último Oscar, no qual não obteve indicação.

Como apenas uma pequena parcela do público conhece a filmografia autobiográfica do diretor dinamarquês, por causa de seu difícil acesso por aqui – fora a participação deste longa na última edição da mostra, apenas “A Árvore do Conhecimento” (1981) foi exibido no Brasil, também no festival paulistano, após seu lançamento em Cannes –, muitos ficarão surpresos ao só compreenderem no final da exibição de que se trata da exteriorização de um trauma do próprio Malmros em forma de filme.

Portanto, o jovem e promissor cineasta Johannes (Jakob Cedergren) se torna o alter ego de Nils nesta história que retorna ao infanticídio doméstico, ocorrido em 1984, que marcara a sua vida.

O longa se inicia quando o pai de família volta para casa, após uma palestra, e descobre que sua própria mulher, a professora Signe (Helle Fagralid), matou a bebê deles, de apenas 9 meses, após – ao que tudo indica – um surto psicótico.

Assim, acontecimentos depois da tragédia são intercalados com flashbacks da relação do casal em uma estrutura narrativa que gera interesse no espectador para descobrir os motivos que levaram à tragédia.

Contudo, Malmros, cujo trabalho precursor no realismo dinamarquês influenciou o movimento Dogma 95, encabeçado por Thomas Vinterberg e Lars von Trier em seu país, comete seguidas falhas no roteiro e na direção.

O desespero inicial da mãe de Signe, Else (Ida Dwinger), que soa até exageradamente melodramático, contrasta com seu comportamento posterior e destoa de maneira drástica da frieza da reação deste pai que perde sua filha, assassinada pela esposa – sem falar na paleta de cores do longa, estritamente cinzenta.

Nesse sentido, suas ações e emoções vão muito além da já conhecida contenção nórdica, um tanto abstrata para os latinos.   Continuação...