ESTREIA–Em “A Pele de Vênus”, Polanski investiga identidade de gênero com humor ácido

quarta-feira, 23 de setembro de 2015 15:21 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - “A Pele de Vênus”, novo filme de Roman Polanski, pode não fazer parte daquilo que se convencionou chamar de “Trilogia do Apartamento” do diretor – composto por “Repulsa ao Sexo” (1965), “O Bebê de Rosemary” (1968) e “O Inquilino” (1976) – mas poderia ser incluído no grupo, muito embora não se passe num apartamento, mas num teatro decadente e vazio de Paris.

É nesse cenário de confinamento que se dá o embate entre uma atriz, Vanda (Emmanuelle Seigner), e um dramaturgo que estreia como diretor, Thomas (Mathieu Amalric).

Baseado na peça “A Vênus das Peles”, do norte-americano David Ives – que assina o roteiro em parceria com o cineasta –, este é um filme que não nega suas origens teatrais, pelo contrário, assume-as a seu favor e faz das limitações um elemento de exploração de claustrofobia extrema, na qual os envolvidos deixam as máscaras caírem e se revelam como são.

O filme abre com imagens de um boulevard qualquer em Paris, onde chove torrencialmente, chegando até a fachada de um teatro decadente – tão decadente que falta o “H” em “Théatre”. Tudo isso ao som de uma música que introduz um tom de cinismo – cortesia do compositor Alexandre Desplat. Quase como um fantasma, a câmera entra nesse lugar, onde irá encontrar, próximo ao palco, um homem reclamando ao telefone. Trata-se de Thomas (Mathieu Amalric), dramaturgo de sucesso que está à procura de uma atriz para sua peça, uma adaptação do clássico da literatura erótica, “A Vênus das Peles”, de Leopold von Sacher-Masoch (de cujo nome a palavra “masoquismo” se origina), publicado em 1870.

Quando a câmera se volta para a porta da sala, nos deparamos com Vanda (Emmanuelle Seigner), encharcada, atrasada e sem muita noção do que é a peça, perguntando se é sobre a música da banda Velvet Underground. Não, a peça é sobre o desejo e os jogos de poder que advêm com ele. O filme também é sobre isso – mas não apenas. A princípio, Thomas não permite que ela faça o teste – afinal, já passou do horário e quer ir para casa encontrar sua noiva intelectual.

Talvez pelo fato de Vanda ter o mesmo nome da personagem, ou sua presença exuberante ou o fato de ela nem o deixar falar, Thomas cede. E Polanski começa, então, a cruzar linhas: entre realidade e fantasia, dominação e submissão, homem e mulher, teatro e cinema. Ele usa em seu favor o espaço restrito e o fato de que Vanda e Thomas têm apenas um ao outro naquele momento, compartilhando um desejo de impressionar um ao outro.

Como não há outra pessoa, Thomas assume o papel de Séverin, masoquista que se torna escravo sexual da Vênus Vanda. Conforme o teste avança, percebe-se que a atriz sabe a peça de cor - o ar de abobada do começo poderia ser apenas uma ferramenta de sedução. Na dialética do Senhor e do Escravo, de Hegel, um não existe sem o outro – e é exatamente isso que acontece aqui. Para que o papel de diretor possa existir, é necessária uma atriz. Para que a dominadora possa existir, é necessário o subjugado.

Nessa dança de papéis, Polanski desvenda as limitações de uma política de gênero. O diretor, aliás, ganhou o César, o mais importante prêmio do cinema francês, por esse trabalho.

O teatro não é um cenário acidental aqui. Nele as pessoas interpretam papéis, usam máscaras. E “A Pele de Vênus” parece apontar exatamente para isso: é preciso esconder a essência para se encaixar nos papéis definidos dos gêneros masculino e feminino. A política de gêneros precisa de representação. Vanda e Thomas entram e saem de personagens – alguns deles impostos pela construção social – o que os aproxima e repele simultaneamente. E os medos do personagem masculino, com o tempo, se transformam naqueles de homens infantilizados diante de grandes mulheres.   Continuação...

 
Roman Polanski concede entrevista em Cracóvia.  25/2/2015.  REUTERS/Kacper Pempel