ESTREIA-"Ponte dos Espiões" revisita Guerra Fria para falar do mundo atual

quarta-feira, 21 de outubro de 2015 16:06 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Voltando à direção depois de três anos (o último trabalho nesta função foi “Lincoln”, 2012), Steven Spielberg mergulha numa história com molho de sobra tanto de espionagem quanto de discussão moral e ética em “Ponte dos Espiões”. Mais uma vez, parte de uma figura real, neste caso, do advogado James Donovan, encarnado por um dos atores favoritos do diretor, Tom Hanks.

Foi o dramaturgo britânico Matt Charman quem apresentou a Spielberg a história deste homem extraordinário, que protagonizou uma das mais espetaculares trocas de prisioneiros entre os EUA e o bloco comunista, envolvendo a então URSS e a Alemanha Oriental.

Grande fã de espionagem, o diretor enxergou no enredo uma ótima oportunidade não só de reciclar os fatos num filme de época, mas especialmente de usá-los para comentar o presente sob outro ângulo.

Sem dúvida, o roteiro assinado por Charman e os irmãos Ethan e Joel Coen oferece a Spielberg a oportunidade de compor um filme bem mais envolvente do que “Lincoln”, que, apesar de suas qualidades e dos méritos inegáveis do ator Daniel Day-Lewis (que com ele venceu seu terceiro Oscar), ressentia-se de uma certa rigidez, talvez por se tratar de figura revestida de enorme sacralidade patriótica.

Donovan, por sua vez, é um homem comum, um pai de família, um advogado 100 por cento ético, obcecado por seguir as leis e ser honesto, mesmo quando seu próprio país espera que ele não o faça. Ou seja, um personagem feito sob medida para o bom e velho Tom Hanks.

A história decola em 1957, auge da Guerra Fria entre as superpotências EUA e URSS. O FBI espiona e finalmente prende um suposto espião pró-soviético, Rudolf Abel (Mark Rylance). As autoridades americanas querem que o seu julgamento transcorra sob a mais límpida aparência de legalidade. Por isso, convoca-se o prestigiado advogado Donovan como defensor do réu.

Naquele momento, Donovan dedicava-se a seguros e resiste a entrar neste campo minado da política. É convencido, no entanto, de sua missão patriótica e decide fazer seu trabalho direito. Começa por questionar os próprios fundamentos da prisão de Abel, que não seguiu todos os trâmites devidos.

Por fazer o que se espera de um defensor na autodenominada maior democracia do mundo, Donovan torna-se, tanto quanto seu cliente, alvo de campanha difamatória e de caça às bruxas. Aparentemente, ele é o único que acha que, neste caso como em qualquer outro, o advogado deve fazer o máximo para proteger seu cliente, independente de suas filiações ideológicas.

A opinião pública e o próprio aparato judicial não esperavam por isso e sim que ele apenas fizesse de conta. Donovan não é desse naipe.   Continuação...

 
Ator Tom Hanks participa de evento em Nova York, nos Estados Unidos. 02/03/2015 REUTERS/Lucas Jackson